Assistir a um filme e prestar atenção em todos os detalhes
das cenas, dos figurinos, dos eventuais erros de continuidade, das performances
dos atores e refletir sobre a trama, em outros tempos passariam quase desapercebidos,
tamanha velocidade do consumo. O “novo
normal” mudou a rotina e o ritmo das coisas.
Quando assisti
ao filme “Encantadora de Baleias” (While Rider- 2003), percebi detalhes do
enredo que me emocionaram, talvez por este momento tão delicado em que
comunidades e famílias ainda sofrem impactos da pandemia. Trata-se de um drama roteirizado
e dirigido por Nikola Jean Caro (Niki Caro). Ela nasceu na Nova Zelândia e conseguiu
retratar de forma simples e emocionante a cultura Maori, a qual considero fascinante.
A história se passa ao leste da Nova Zelândia, numa comunidade chamada
Whangara. O enredo do filme faz referência a uma das muitas lendas Maori. Há
milhares de anos, um ancestral chamado Paikea conduziu seu povo até novas
terras cavalgando uma baleia. E a cada geração espera-se que um primogênito ocupe
o lugar de líder espiritual do povo.
Quando seu
filho mais velho, Porourangi e sua esposa aguardavam a chegada de um casal de gêmeos,
Koro – pai de Porourangi, líder da comunidade – esperava que um menino viesse
ao mundo para garantir a tradição milenar. Durante o parto, o menino tão
esperado e a nora de Koro morreram. Porém, a menina sobreviveu e recebeu o nome
de “Pai” em homenagem ao ancestral Paikea. Mas, Koro queria um neto sucessor. Com
a dolorosa perda da esposa e do filho, Porourangi vai para a Europa e deixa a
filha aos cuidados da avó Flowers.
A menina Pai foi crescendo muito apegada ao avô Koro,
nutrindo profundo respeito e admiração por ele. Inclusive, nota-se características
muito semelhantes a personalidade do avô. Ela era inteligente, autoritária e corajosa.
Demonstrava curiosidade e questionava seu avô sobre a origem de seu povo e suas
tradições. Numa das cenas, Koro contou a Pai que seu povo viera de Hawaiki,
onde habitam os ancestrais. Com um pedaço de corda, Koro ilustra à Pai o quanto
é importante que a linhagem ancestral continue entrelaçada, resistente e forte.
Passar adiante o legado cultural, garante manter a identidade da comunidade e a
construção da subjetividade de seus membros. Mas, nas mãos de Koro, a corda se
partiu. Quando Koro se afasta para buscar outra corda, Pai consegue reatá-la. Ao
retornar, Koro ralha com a neta dizendo que ela poderia ter se machucado, ao
invés de reconhecer o quanto foi habilidosa e determinada. Ela conseguiu ligar
o motor do barco com a corda reatada por ela. A cada cena, Pai vai sinalizando
sua capacidade de liderança.
Koro fundou na comunidade, uma escola para adolescentes
primogênitos para ensiná-los sobre os antigos costumes sagrados. Ele queria treiná-los
para no final escolher aquele que seria dotado de força, coragem, determinação,
inteligência e liderança para ocupar o papel do líder Paikea. No entanto,
proibia a neta de frequentá-la para não macular a tradição destinada somente
aos homens. O machismo permeia o relacionamento de Koro com a neta e com as
mulheres da comunidade. Koro não reconhecia a importância do feminino na manutenção
da tradição cultural e familiar. Durante o filme, percebe-se o quanto Flowers é
sensível às situações, podendo ser considerada o “bom senso" que Koro não
tem. Ele esbanja aspereza, dureza, insensibilidade, tal qual as esculturas
entalhadas em madeira. Flowers representa uma mulher forte, firme e sábia, a
ponto de escolher o momento de falar e de calar. Lembrei-me de um vídeo sobre
sociedades matriarcais, cuja especialista no assunto, Dra. Goettner-Abendroth, fala
sobre as diferenças do modelo matriarcal frente ao patriarcal, onde prevalece a
igualdade de direitos, o valor do coletivo, a política sem disputas de poder,
portando, mostra-se um sistema mais realista, onde a figura materna é importante
na formação de uma base familiar sólida. Ela conclui que o matriarcado não é o
avesso do patriarcado, não tira do homem seu valor e nem enfraquece seu lugar
de autoridade.
A menina Pai se esforçava para agradar seu avô, que
por sua vez, estava cego por encontrar um novo líder e surdo por não conseguir
escutar o lamento das baleias que anunciavam o sofrimento de seu povo. A
comunidade parece ser pequena, sem muitos recursos econômicos e com problemas de
ordem social.
Koro não percebia o quanto magoava a todos ao seu
redor. “Um comandante muito austero, irredutível, atravessa os sentimentos dos
seus comandados e os incita ao motim”. (Jean-Pierre Lebrun). Por conta de sua
teimosia e rigidez, Koro desprezava os valores e potenciais de seus filhos, da neta
e de outros habitantes local. Percebe-se em algumas cenas, a expressão de
desmotivação das pessoas quando Koro está por perto. Em sua ausência, as
mulheres se reuniam para beber, fumar e jogar, os jovens se drogavam e pareciam
sem direcionamento na vida. Com essa postura, Koro estava dizimando a
comunidade levando sofrimento a sua família, sobretudo à sua neta, ao invés de
promover união.
Koro despreza o potencial artístico de Porourangi e
fica transtornado ao saber que ele tem uma namorada alemã e que terá um filho
com ela. Koro também não valorizou o filho caçula, Rawiri, não percebeu nele
características de líder e nem reconheceu seu talento como um exímio lutador de
Taiaha (um bastão pontudo de 1,5m de altura). Rawiri tornou-se usuário de
drogas, obeso e relaxado com a aparência. Ele se sente valorizado e começa a se
cuidar quando a menina Pai o convida para ensiná-la a usar o Taiaha. Pai passa
a receber de toda a comunidade reconhecimento por sua espiritualidade e
determinação. Como no momento em que mergulha no fundo do mar e consegue resgatar
o amuleto de seu avô e o entrega a avó Flowers, que por sua vez, aguarda
sabiamente, o melhor momento para devolvê-lo a Koro.
Quando percebe que sua persistência não está tendo
resultados, Koro se isola muito deprimido. Interessante pensar que o sofrimento
de Koro parece mexer com valores aquém em relação aos da neta. Embora muito
triste e rejeitada, não desiste de amá-lo e de respeitar suas origens enquanto
descendente de Paikea.
O filme culmina com o encalhe das baleias, “o ponto da
virada”, dramaticamente envolvendo toda a comunidade, inclusive Koro. Enquanto todos
unidos tentavam desencalhar as baleias, surgiu Pai, mesmo hostilizada pelo avô,
ocupou seu lugar de verdadeira sucessora de Paikea, cavalgou a baleia conduzindo
o baleal de volta ao oceano. Momento que me levou a pensar o quanto é
importante rever determinadas crenças e costumes familiares para readaptá-los
conforme a evolução histórica. Finalmente, Koro percebeu que suas atitudes estavam
encalhando as mudanças necessárias para a manutenção da cultura, passando a
Pai a tradição ancestral Whangara e, assim, impedindo que se perca no tempo.