quinta-feira, 12 de setembro de 2024

 Tempo de Travessia

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos".  (Fernando Teixeira de Andrade -1946/2008).

Somos seres de mudanças e seguimos a vida numa luta constante para nos adaptarmos as mais diversas situações. Talvez, o maior segredo da vida seja se permitir seguir em frente, apesar de tudo. Sempre de olhos bem abertos as possibilidades, descobrir novos caminhos, experimentar algo novo. Sim, temos escolhas: podemos ficar repetindo as mesmas situações e desculpas por comodismo, por medo, por não nos considerarmos capazes, ou podemos romper com tudo que nos limita e encararmos a travessia.  





 

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

“Encantadora de Baleias” - Alguns comentários sobre o filme

Assistir a um filme e prestar atenção em todos os detalhes das cenas, dos figurinos, dos eventuais erros de continuidade, das performances dos atores e refletir sobre a trama, em outros tempos passariam quase desapercebidos, tamanha velocidade do consumo.  O “novo normal” mudou a rotina e o ritmo das coisas. 

Quando assisti ao filme “Encantadora de Baleias” (While Rider- 2003), percebi detalhes do enredo que me emocionaram, talvez por este momento tão delicado em que comunidades e famílias ainda sofrem impactos da pandemia. Trata-se de um drama roteirizado e dirigido por Nikola Jean Caro (Niki Caro). Ela nasceu na Nova Zelândia e conseguiu retratar de forma simples e emocionante a cultura Maori, a qual considero fascinante. A história se passa ao leste da Nova Zelândia, numa comunidade chamada Whangara. O enredo do filme faz referência a uma das muitas lendas Maori. Há milhares de anos, um ancestral chamado Paikea conduziu seu povo até novas terras cavalgando uma baleia. E a cada geração espera-se que um primogênito ocupe o lugar de líder espiritual do povo.

 Quando seu filho mais velho, Porourangi e sua esposa aguardavam a chegada de um casal de gêmeos, Koro – pai de Porourangi, líder da comunidade – esperava que um menino viesse ao mundo para garantir a tradição milenar. Durante o parto, o menino tão esperado e a nora de Koro morreram. Porém, a menina sobreviveu e recebeu o nome de “Pai” em homenagem ao ancestral Paikea. Mas, Koro queria um neto sucessor. Com a dolorosa perda da esposa e do filho, Porourangi vai para a Europa e deixa a filha aos cuidados da avó Flowers.  

A menina Pai foi crescendo muito apegada ao avô Koro, nutrindo profundo respeito e admiração por ele. Inclusive, nota-se características muito semelhantes a personalidade do avô. Ela era inteligente, autoritária e corajosa. Demonstrava curiosidade e questionava seu avô sobre a origem de seu povo e suas tradições. Numa das cenas, Koro contou a Pai que seu povo viera de Hawaiki, onde habitam os ancestrais. Com um pedaço de corda, Koro ilustra à Pai o quanto é importante que a linhagem ancestral continue entrelaçada, resistente e forte. Passar adiante o legado cultural, garante manter a identidade da comunidade e a construção da subjetividade de seus membros. Mas, nas mãos de Koro, a corda se partiu. Quando Koro se afasta para buscar outra corda, Pai consegue reatá-la. Ao retornar, Koro ralha com a neta dizendo que ela poderia ter se machucado, ao invés de reconhecer o quanto foi habilidosa e determinada. Ela conseguiu ligar o motor do barco com a corda reatada por ela. A cada cena, Pai vai sinalizando sua capacidade de liderança.

Koro fundou na comunidade, uma escola para adolescentes primogênitos para ensiná-los sobre os antigos costumes sagrados. Ele queria treiná-los para no final escolher aquele que seria dotado de força, coragem, determinação, inteligência e liderança para ocupar o papel do líder Paikea. No entanto, proibia a neta de frequentá-la para não macular a tradição destinada somente aos homens. O machismo permeia o relacionamento de Koro com a neta e com as mulheres da comunidade. Koro não reconhecia a importância do feminino na manutenção da tradição cultural e familiar. Durante o filme, percebe-se o quanto Flowers é sensível às situações, podendo ser considerada o “bom senso" que Koro não tem. Ele esbanja aspereza, dureza, insensibilidade, tal qual as esculturas entalhadas em madeira. Flowers representa uma mulher forte, firme e sábia, a ponto de escolher o momento de falar e de calar. Lembrei-me de um vídeo sobre sociedades matriarcais, cuja especialista no assunto, Dra. Goettner-Abendroth, fala sobre as diferenças do modelo matriarcal frente ao patriarcal, onde prevalece a igualdade de direitos, o valor do coletivo, a política sem disputas de poder, portando, mostra-se um sistema mais realista, onde a figura materna é importante na formação de uma base familiar sólida. Ela conclui que o matriarcado não é o avesso do patriarcado, não tira do homem seu valor e nem enfraquece seu lugar de autoridade.           

A menina Pai se esforçava para agradar seu avô, que por sua vez, estava cego por encontrar um novo líder e surdo por não conseguir escutar o lamento das baleias que anunciavam o sofrimento de seu povo. A comunidade parece ser pequena, sem muitos recursos econômicos e com problemas de ordem social.

Koro não percebia o quanto magoava a todos ao seu redor. “Um comandante muito austero, irredutível, atravessa os sentimentos dos seus comandados e os incita ao motim”. (Jean-Pierre Lebrun). Por conta de sua teimosia e rigidez, Koro desprezava os valores e potenciais de seus filhos, da neta e de outros habitantes local. Percebe-se em algumas cenas, a expressão de desmotivação das pessoas quando Koro está por perto. Em sua ausência, as mulheres se reuniam para beber, fumar e jogar, os jovens se drogavam e pareciam sem direcionamento na vida. Com essa postura, Koro estava dizimando a comunidade levando sofrimento a sua família, sobretudo à sua neta, ao invés de promover união.

Koro despreza o potencial artístico de Porourangi e fica transtornado ao saber que ele tem uma namorada alemã e que terá um filho com ela. Koro também não valorizou o filho caçula, Rawiri, não percebeu nele características de líder e nem reconheceu seu talento como um exímio lutador de Taiaha (um bastão pontudo de 1,5m de altura). Rawiri tornou-se usuário de drogas, obeso e relaxado com a aparência. Ele se sente valorizado e começa a se cuidar quando a menina Pai o convida para ensiná-la a usar o Taiaha. Pai passa a receber de toda a comunidade reconhecimento por sua espiritualidade e determinação. Como no momento em que mergulha no fundo do mar e consegue resgatar o amuleto de seu avô e o entrega a avó Flowers, que por sua vez, aguarda sabiamente, o melhor momento para devolvê-lo a Koro.

Quando percebe que sua persistência não está tendo resultados, Koro se isola muito deprimido. Interessante pensar que o sofrimento de Koro parece mexer com valores aquém em relação aos da neta. Embora muito triste e rejeitada, não desiste de amá-lo e de respeitar suas origens enquanto descendente de Paikea.

O filme culmina com o encalhe das baleias, “o ponto da virada”, dramaticamente envolvendo toda a comunidade, inclusive Koro. Enquanto todos unidos tentavam desencalhar as baleias, surgiu Pai, mesmo hostilizada pelo avô, ocupou seu lugar de verdadeira sucessora de Paikea, cavalgou a baleia conduzindo o baleal de volta ao oceano. Momento que me levou a pensar o quanto é importante rever determinadas crenças e costumes familiares para readaptá-los conforme a evolução histórica. Finalmente, Koro percebeu que suas atitudes estavam encalhando as mudanças necessárias para a manutenção da cultura, passando a Pai a tradição ancestral Whangara e, assim, impedindo que se perca no tempo.

 

 

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

REFLEXÕES SOBRE LUTO

          Como psicóloga, acompanho muitas pessoas e famílias que passaram ou ainda estão passando por algum tipo de perda. Inevitavelmente, a vida dessas pessoas mudou! Sobretudo, para aquelas que sofreram a perda de entes queridos, amigos ou pessoas próximas. Quando vínculos se rompem, quando há separações ou perdas, seja pelo término de um relacionamento, pelas mudanças significativas na vida ou por mortes, as pessoas se vêm diante da dor do luto. Comentarei sobre o luto por ocasião da morte de alguém muito amado.
          Embora, num primeiro momento, as pessoas demonstrem grande fragilidade e profunda tristeza, o processo de luto é diferente para cada um. Não é possível padronizar e nem saber quanto tempo irá durar, pois cada um tem suas próprias necessidades e maneiras de expressar seus sofrimentos e todos têm o direito de ser ouvido e de ter sua dor respeitada.
         Quando um membro da família se vai, surge a necessidade de se reorganizar e de rever o vínculo de afeto, pois com a morte, a estrutura da dinâmica familiar sofre mudanças. Um sentimento muito comum observado por pacientes enlutados é a culpa. Além da tristeza, da raiva, as pessoas sentem-se culpadas por acreditar que falharam em algo e que podiam ter evitado a perda. Outras reações também consideradas comuns são a sensação de vazio, angústia, dor no peito, cansaço, pensamentos confusos, alteração do sono e do apetite. Antigamente, se descrevia o processo de luto como período de “nojo”, “estar de nojo”. De fato, a pessoa enlutada passa por grandes oscilações de sentimentos e emoções para conseguir ressignificar a perda, elaborar a ausência e dar novo sentido à vida. 
          Crianças vivem o luto? Diante da morte de entes queridos, crianças sofrem o impacto da mudança em seu mundo presumido, e também vivem o luto que é diretamente influenciado pelos recursos de enfrentamento dos familiares. É de grande importância informar a realidade para a criança e oferecer a ela o tempo que precisar para se readaptar, garantir acima de tudo proteção e disponibilidade de escuta sempre que ela sentir vontade de falar sobre a perda.
          Para que sofremos perdas? Qual o sentido de passarmos pela dor do luto? Para nos fazer perceber o quanto somos capazes de amar, e que esse amor não se esgota na ausência de quem se foi. Ele permanece forte e, é a partir desse amor durante o processo do luto que surgirá a possibilidade de nos reconstruirmos mais capazes e transformados.

Quem tem um animal de estimação tem diversão garantida!


Há um pouco mais de 12 mil anos, os animais começaram a ser domesticados. Cães e gatos passaram a ocupar um lugar dentro do núcleo familiar. Ainda mais com o avanço da ciência e da tecnologia, foi possível descobrir como são perspicazes e importantes para promover bem-estar e saúde às pessoas.

Com eles aprendemos a cuidar, a ter compaixão, tolerância, nos tornamos mais disciplinados, organizados e higiênicos. Exercitamos a troca de afeto diária, descobrimos o amor incondicional e a diversão. Sim, a diversão! Mesmo os humanos mais sisudos, não resistem aos encantos de um pet! Ainda mais quando ele traz a bolinha até você, automaticamente, você se vê compelido a arremessá-la. Quando se dá conta, sua criança interior despertou e você está brincando e se divertindo!

Quem tem um animal de estimação tem alegria! E as conversas? São excelentes companheiros e ouvintes. Cães e gatos ganharam status de quase humanos. Pena não possuírem o domínio da linguagem. Embora alguns pareçam verbalizar “I love you!” ou “Magoou!”.

Normalmente, meus gatos Freud e Anakin interagem comigo miando ou ronronando. Ao cumprimentá-los todas as manhãs, eles parecem responder “Olá!”. Cães e gatos se adaptaram super bem aos costumes dos humanos, até mesmo a alimentação. Conheço um cãozinho chamado Scooby que adora brócolis e tomates. A Mia é uma gata bastante exigente e o Gadie um gato charmoso e cheio de melindres.

Descobriu-se que os animais têm um valor terapêutico inestimável. Em contato com eles, ao abraçá-los ou acariciá-los, ocorre a produção de neurotransmissores que dão sensação de prazer e de bem estar, aumenta a imunidade, regula os níveis de colesterol e a pressão arterial, diminuindo os riscos de problemas cardíacos, além de combater o estresse e controlar a ansiedade.

Crianças que crescem com um animal de estimação, aprendem logo cedo a respeitar a natureza e tornam-se mais resistentes a alergias. Meu neto está crescendo com a Mini, uma cachorrinha muito carinhosa e sensível que cuida dele como se fosse sua cria.

Quer conhecer uma família? Observe o comportamento dos animais de estimação. Eles desenvolvem hábitos compatíveis com os costumes do ambiente e, melhor que isso, com muita sutileza, sinalizam quando algo não vai bem porque pressentem o perigo ou quando alguém precisa de cuidados da saúde.

Na década de 50, a psiquiatra Dra. Nise da Silveira cuidava de vários gatos e utilizava-os como co-terapeutas nos tratamentos dos pacientes psiquiátricos. Hoje em dia, muitos animais são co-terapeutas em diversos tipos de tratamentos como portadores da síndrome do autismo, pacientes com câncer, portadores de Alzheimer, pacientes com limitações físicas ou mentais. Cães são treinados e são imprescindíveis para resgates em desastres e investigações policiais. Há pouco tempo, cães e gatos ganharam espaço nos meios de transportes, também são aceitos em hotéis, shoppings e em centros comerciais. Por sorte, existem leis rígidas que os protegem dos maus tratos.

Quem tem um pet concordará comigo, eles são espontâneos, não fazem distinção, não são preconceituosos, não mentem, são leais e são, verdadeiramente, os melhores amigos.

                  

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Implicações Psicológicas e Emocionais na Obesidade

- “Eu engordei!”

- “Não estou gostando da minha imagem no espelho!”

- “Minhas roupas não me servem mais!”

- “Estou me sentindo uma bola!”

- “Às vezes penso: aonde vou parar desse jeito?”

- “Há anos luto contra a balança!”

- “Mal comecei a ir para a academia e desanimei!”

São queixas comuns nas sessões de psicoterapia. O que acontece com esses pacientes? Sabemos que a obesidade pode acarretar doenças crônicas como a hipertensão, o diabetes, problemas cardíacos, nas articulações, dentre outras. No entanto, existem doenças fisiológicas, cujos sintomas podem levar a obesidade, como as alterações hormonais e metabólicas, juntamente a maus hábitos alimentares ou, o que é mais comum, condicionamentos da infância.

Lembrei-me daquela antiga tradição a qual dizia que criança saudável é criança gordinha! Tem que raspar o prato para ter direito a sobremesa! Criança magra é desnutrida, doente ou tem vermes! Quantas crianças tomaram tônicos e elixires a base de álcool ou óleo de fígado de bacalhau para abrir o apetite? Que tortura!! Crianças que vivenciaram a cultura daquela época, hoje em dia adultos, podem estar brigando com a balança.

 Existem inúmeras implicações emocionais e psicológicas na existência da obesidade. Muitos pacientes relatam várias tentativas frustradas para emagrecer. Às vezes conseguem manter o peso por um tempo, mas, logo engordam além do peso anterior. Com certeza existem crenças por trás da fome incontida. E questões mentais negativas podem atrapalhar qualquer dieta.

Enquanto está saboreando uma lata de leite condensado, a pessoa acha uma delícia, sente muito prazer, mas, no momento seguinte, acaba se sentindo culpada. Aliás, o sentimento de culpa, a sensação de impotência pelo descontrole, o fracasso, a frustração, sempre acontecem após a ingestão excessiva de alimentos. Como num círculo vicioso: sentir fomeàcomer em exageroàsentir culpaà fazer regimeà sentir fome...e começa tudo de novo. As restrições de alimentos e jejuns, se mal administrados duram pouco tempo, podendo acarretar momentos de compulsão alimentar.

Por que comer em exagero? Será que está a serviço de armazenar forças para enfrentar a difícil realidade? Será que representa compensar uma falta ou uma carência? Vou citar algumas hipóteses de problemas psicológicos e emocionais que podem levar a obesidade: Um ambiente familiar com pouco ou nenhum apoio emocional, onde as angústias são ignoradas, geram lacunas que são preenchidas com comidas, doces e guloseimas para compensar a falta de afeto. Traumas ocorridos na infância, violência sexual, física e/ou psicológica, podem levar a obesidade, sobretudo na fase adulta. Um quadro de depressão, de ansiedade, dificuldades de relacionamento, dificuldades sexuais (no sentido da busca do prazer), distúrbios alimentares (relacionados a compulsão), dismorfia corporal (preocupação obsessiva com a autoimagem). A balança acaba se transformando numa tortura e em efeitos psicológicos negativos. Infelizmente, a pressão midiática ainda causa certa influência na busca de um corpo ideal, fazendo com que muitas pessoas se arrisquem em regimes com tratamentos medicamentosos ou cirurgias plásticas e estéticas muito radicais, cujos resultados nem sempre saem a contento ou podem ser irreversíveis. Até mesmo casos em que o paciente voltou a engordar após a redução do estômago.

Acredito muito na multidisciplinaridade, ou seja, profissionais de diferentes áreas, cada um na sua competência escutando, esclarecendo e orientando os pacientes, cuja meta maior é combater a obesidade e alcançar resultados para eliminar peso, melhorar a saúde e o estilo de vida. Endocrinologia, Nutrição, Fisiatria, Educação Física, dentre outras especialidades, são muito importantes. Entretanto, o Tratamento Psicológico é fundamental para detectar os pensamentos e crenças disfuncionais que levam aos maus hábitos alimentares e ao sofrimento emocional e psíquico. Além disso, promover a conscientização e o desenvolvimento de estratégias para manter a boa saúde mental e a qualidade de vida. 

segunda-feira, 14 de junho de 2021

      Depressão com Crises de Ansiedade consequente a Pandemia

O avanço da pandemia causada pela Covid-19 vem em ondas, acarretando o aumento do número de internações e de mortes, além de medidas político-econômicas e de saúde muito imprecisas. As pessoas estão cada vez mais confusas, inseguras e suscetíveis aos acontecimentos. Estão passando por problemas financeiros, desempregos, até mesmo, falências. São muitas coisas para aceitar e se adaptar no dia a dia. Surgem, então, sintomas denunciando perturbações e desequilíbrios da mente e do corpo em relação a um mundo ameaçador.
         Estão sendo comuns as queixas de angústia, tristeza e desmotivação, assim como, de insônia ou de sonolência exagerada, reclamações sobre ganho de peso e baixa autoestima. Insatisfeitas consigo, com os outros e sem perspectivas de futuro, as pessoas estão mais irritadas e agressivas. Aquelas que perderam parentes e amigos para a Covid-19 estão lidando com luto difícil de elaborar, alimentado diariamente pelas estatísticas de mortes.
Todos estes sintomas estão denunciando um tipo de Depressão com Crises de Ansiedade que tem sido frequente na clínica psicológica. É importante salientar que, as crises de ansiedade, se não tratadas, podem levar a um quadro de depressão mais grave. Embora em menor escala, o contrário também é possível, ou seja, pessoas com depressão podem passar a ter crises de ansiedade.

          Depressão Ansiosa, Ansiedade Depressiva ou Depressão Covid-19?

        Diante de tantas consequências causadas pela pandemia, a terminologia correta para Depressão com Crises de Ansiedade passa a ser mero detalhe face a urgência de medidas para evitar que este tipo de transtorno se torne tão corriqueiro quanto contrair a Covid-19. Portanto, a necessidade de tratamento psicológico passou a ter prioridade por proporcionar ao paciente, um espaço de acolhimento e de escuta terapêutica para organizar sentimentos e emoções, para reprogramar caminhos e desenvolver recursos de enfrentamento e resiliência. Mas, se os sintomas estiverem insuportáveis, a avaliação de um médico psiquiatra se torna imprescindível, pois, há casos em que as medicações são bem vindas e podem trazer grande alívio.
                                        Algumas sugestões saudáveis 

      É importante atualizar-se sobre medidas de saúde e segurança, sobre a eficácia das vacinas, dentre outros assuntos que envolvam qualidade de vida. Porém, é preciso evitar notícias deprimentes e informações distorcidas sem cunho científico, pois, o hábito pode provocar revolta e dar margem a exacerbação da angústia, do medo e da tristeza.
       É aconselhável procurar atividades que proporcionem bem estar e tranquilidade, usar a criatividade, ler bons livros, ouvir boas músicas, cantar, dançar, assistir séries, fazer arte e praticar atividades físicas. E ao sair de casa, seja responsável por seus atos e pense em si e no bem estar comum, não esqueça de usar máscaras e levar o álcool em gel.
 

domingo, 9 de maio de 2021

MÃE PADECE, MAS, NÃO ESMORECE !

Mãe que é mãe é capaz de amar suas crias incondicionalmente, mesmo com todos os percalços que a gestação, o parto, a amamentação e as fases de desenvolvimento acarretam. Eu sei, não é via de regra! Nem toda mulher consegue exercer a maternidade. Me refiro a grande maioria das mulheres que, ao engravidar e depois com o filho nos braços, se sente realizada no papel de mãe. Imaginem quantas influencias arquetípicas emergem do inconsciente quando uma mulher se torna mãe. Sua vida muda totalmente! Daquele momento para frente, ela assume a responsabilidade de preparar este indivíduo para o mundo. Entre erros e acertos, essa mãe vai significando seus sentimentos tornando o exercício do papel de mãe mais interessante. Segundo Donald W. Winnicott (1949), a mãe suficientemente boa é aquela que está preparada em sua essência e, a sua devoção ao bebê proporcionará êxito na criação dele.

Vou partilhar um pouco da minha experiência como mãe. Eu desejei ser mãe! Tenho 3 filhos. As primeiras fases de desenvolvimento foram inesquecíveis porque brinquei muito com eles. Aliás, do meu ponto de vista, o maior segredo do papel de mãe, é manter viva a criança que você foi um dia. Fomos a praias, parques, zoológicos, cinemas, museus e circos, andamos de bicicleta, jogamos bola, peteca, subimos em árvores, lemos livros com histórias inesquecíveis. Quando estas opções se tornavam escassas, nós inventávamos as brincadeiras. Foi uma grande aventura! Confesso que um dos momentos difíceis enfrentados por mim enquanto mãe, foi arbitrar para promover justiça mantendo a imparcialidade quando, por exemplo, os três resolviam entrar numa teima ao disputar o mesmo brinquedo ou o controle remoto da TV ou quem era o dono-mor do Chiquinho (o cachorro). Recordo momentos tensos que acabavam sendo cômicos. Quando um armário de parede despencou porque os três se apoiavam nele enquanto lutavam imitando desenhos animados. Assustados, um acusou o outro e falavam os três ao mesmo tempo. No final, concluímos que o armário estava “mal pregado na parede”. Sinto muitas saudades!

Há anos, eles moram fora do país porque filhos são como passarinhos. Quando suas asas estão com boa envergadura, eles escolhem um rumo e vão explorar o mundo. Alguns filhos não se satisfazem com bairros ou cidades mais próximos. Então, corajosamente, decidem explorar outros continentes. Meus filhos amadureceram e nasceram para o mundo. Sim, são novos partos! De alguma forma, eu estava preparada para viver a síndrome do ninho vazio. Eu sabia que ia doer. Como de fato doeu, porém, ao mesmo tempo, senti uma grande satisfação por vê-los prontos para voar. Afinal, eu os ensinei!

É natural e salutar que este dia chegue. Toda mãe deve estar preparada para esta fase, pois, surgem novas oportunidades de reencontrar a mulher por detrás da mãe, de reavaliar seus papéis como profissional, como esposa, como filha, ter um olhar para sua saúde e, até mesmo, realizar desejos e projetos em standby.

Em fevereiro deste ano, minha filha se tornou mãe. Meu neto é lindo e super saudável. Um bebê feliz! Eu me tornei avó. Ser avó também é ser mãe...com açúcar! Entretanto, por conta da pandemia, não pude vivenciar este momento tão esperado. Refiro-me a estar por perto para ajudar minha filha e meu genro no que fosse necessário. Nem sei se, realmente, haveria necessidade! Na verdade, eu desejava reviver a fase da maternidade que para mim foi uma fase muito bacana, ainda mais por se tratar da gravidez da minha única filha e do nascimento do meu neto primogênito. Meu neto nasceu de parto normal e ainda não pude pegá-lo no colo, trocar uma fralda, empurrar o carrinho para levá-lo ao parque e declarar a quem possa interessar: Este é o meu neto primogênito! Ele é tão bonito, não é? Até ensaiei umas frases em mais que um idioma: He´s my firstborn grandson! He´s so handsome, Isn´t he? Er ist mein girstgeborener Enkel! Er ist so hübsch, nicht wahr? Por conta do fuso horário, tenho que aguardar o dia e o momento que receberei uma chamada de vídeo para conseguir brincar com ele um pouco. É o que tenho para o momento!

Ser mãe é padecer no paraíso! Eu posso afirmar que ser avó, em tempos de pandemia, também! Afinal, ainda segundo Winnicott, a mãe suficientemente boa, com o tempo, vai se tornando desnecessária. Hoje em dia sou uma mãe desnecessária para meus filhos! Entretanto, a vida é como um “estilingue humano”, um dia estaremos todos perto e novas experiencias acontecerão.

Após anos morando sozinha, há dois anos estou morando com a minha mãe. Sim, eu cuido da minha mãe e da minha tia materna também. Estou tendo este privilégio! Vejam só: A minha mãe cuidou de mim e me ajudou a cuidar dos meus filhos. Minha tia ajudou a minha mãe a cuidar de mim e dos meus irmãos e, sempre que precisei, ela também cuidou dos meus filhos. Hoje em dia eu cuido delas! Novamente, surgem grandes oportunidades de rever meus papeis, avaliar minha caminhada, repensar minha vida profissional, exercitar a minha paciência e complacência e nunca deixar de me alegrar com a minha bagagem. Afinal, “se chorei ou se sorri, o importante são que emoções eu vivi!” (Emoções – Roberto Carlos)

Comentei nesse texto algumas das minhas experiências como mãe.  Acredito que muitas mulheres viveram ou estão vivendo situações semelhantes e, talvez se identifiquem. Então, o dedico à todas as mães, avós, tias, irmãs, cunhadas, sogras, primas, que de alguma forma e, às vezes, sem perceber participaram ou ainda participam dessa rede de cuidados na criação de “nossos” filhos. Existe aquele provérbio africano que diz o seguinte: “É preciso uma aldeia inteira para criar uma criança”. E quem não concorda?


Sugestões: Música- "Emoções" Roberto Carlos

Nota: As citações no texto foram capturadas em consultas de publicações da internet.