quinta-feira, 25 de novembro de 2021

“Encantadora de Baleias” - Alguns comentários sobre o filme

Assistir a um filme e prestar atenção em todos os detalhes das cenas, dos figurinos, dos eventuais erros de continuidade, das performances dos atores e refletir sobre a trama, em outros tempos passariam quase desapercebidos, tamanha velocidade do consumo.  O “novo normal” mudou a rotina e o ritmo das coisas. 

Quando assisti ao filme “Encantadora de Baleias” (While Rider- 2003), percebi detalhes do enredo que me emocionaram, talvez por este momento tão delicado em que comunidades e famílias ainda sofrem impactos da pandemia. Trata-se de um drama roteirizado e dirigido por Nikola Jean Caro (Niki Caro). Ela nasceu na Nova Zelândia e conseguiu retratar de forma simples e emocionante a cultura Maori, a qual considero fascinante. A história se passa ao leste da Nova Zelândia, numa comunidade chamada Whangara. O enredo do filme faz referência a uma das muitas lendas Maori. Há milhares de anos, um ancestral chamado Paikea conduziu seu povo até novas terras cavalgando uma baleia. E a cada geração espera-se que um primogênito ocupe o lugar de líder espiritual do povo.

 Quando seu filho mais velho, Porourangi e sua esposa aguardavam a chegada de um casal de gêmeos, Koro – pai de Porourangi, líder da comunidade – esperava que um menino viesse ao mundo para garantir a tradição milenar. Durante o parto, o menino tão esperado e a nora de Koro morreram. Porém, a menina sobreviveu e recebeu o nome de “Pai” em homenagem ao ancestral Paikea. Mas, Koro queria um neto sucessor. Com a dolorosa perda da esposa e do filho, Porourangi vai para a Europa e deixa a filha aos cuidados da avó Flowers.  

A menina Pai foi crescendo muito apegada ao avô Koro, nutrindo profundo respeito e admiração por ele. Inclusive, nota-se características muito semelhantes a personalidade do avô. Ela era inteligente, autoritária e corajosa. Demonstrava curiosidade e questionava seu avô sobre a origem de seu povo e suas tradições. Numa das cenas, Koro contou a Pai que seu povo viera de Hawaiki, onde habitam os ancestrais. Com um pedaço de corda, Koro ilustra à Pai o quanto é importante que a linhagem ancestral continue entrelaçada, resistente e forte. Passar adiante o legado cultural, garante manter a identidade da comunidade e a construção da subjetividade de seus membros. Mas, nas mãos de Koro, a corda se partiu. Quando Koro se afasta para buscar outra corda, Pai consegue reatá-la. Ao retornar, Koro ralha com a neta dizendo que ela poderia ter se machucado, ao invés de reconhecer o quanto foi habilidosa e determinada. Ela conseguiu ligar o motor do barco com a corda reatada por ela. A cada cena, Pai vai sinalizando sua capacidade de liderança.

Koro fundou na comunidade, uma escola para adolescentes primogênitos para ensiná-los sobre os antigos costumes sagrados. Ele queria treiná-los para no final escolher aquele que seria dotado de força, coragem, determinação, inteligência e liderança para ocupar o papel do líder Paikea. No entanto, proibia a neta de frequentá-la para não macular a tradição destinada somente aos homens. O machismo permeia o relacionamento de Koro com a neta e com as mulheres da comunidade. Koro não reconhecia a importância do feminino na manutenção da tradição cultural e familiar. Durante o filme, percebe-se o quanto Flowers é sensível às situações, podendo ser considerada o “bom senso" que Koro não tem. Ele esbanja aspereza, dureza, insensibilidade, tal qual as esculturas entalhadas em madeira. Flowers representa uma mulher forte, firme e sábia, a ponto de escolher o momento de falar e de calar. Lembrei-me de um vídeo sobre sociedades matriarcais, cuja especialista no assunto, Dra. Goettner-Abendroth, fala sobre as diferenças do modelo matriarcal frente ao patriarcal, onde prevalece a igualdade de direitos, o valor do coletivo, a política sem disputas de poder, portando, mostra-se um sistema mais realista, onde a figura materna é importante na formação de uma base familiar sólida. Ela conclui que o matriarcado não é o avesso do patriarcado, não tira do homem seu valor e nem enfraquece seu lugar de autoridade.           

A menina Pai se esforçava para agradar seu avô, que por sua vez, estava cego por encontrar um novo líder e surdo por não conseguir escutar o lamento das baleias que anunciavam o sofrimento de seu povo. A comunidade parece ser pequena, sem muitos recursos econômicos e com problemas de ordem social.

Koro não percebia o quanto magoava a todos ao seu redor. “Um comandante muito austero, irredutível, atravessa os sentimentos dos seus comandados e os incita ao motim”. (Jean-Pierre Lebrun). Por conta de sua teimosia e rigidez, Koro desprezava os valores e potenciais de seus filhos, da neta e de outros habitantes local. Percebe-se em algumas cenas, a expressão de desmotivação das pessoas quando Koro está por perto. Em sua ausência, as mulheres se reuniam para beber, fumar e jogar, os jovens se drogavam e pareciam sem direcionamento na vida. Com essa postura, Koro estava dizimando a comunidade levando sofrimento a sua família, sobretudo à sua neta, ao invés de promover união.

Koro despreza o potencial artístico de Porourangi e fica transtornado ao saber que ele tem uma namorada alemã e que terá um filho com ela. Koro também não valorizou o filho caçula, Rawiri, não percebeu nele características de líder e nem reconheceu seu talento como um exímio lutador de Taiaha (um bastão pontudo de 1,5m de altura). Rawiri tornou-se usuário de drogas, obeso e relaxado com a aparência. Ele se sente valorizado e começa a se cuidar quando a menina Pai o convida para ensiná-la a usar o Taiaha. Pai passa a receber de toda a comunidade reconhecimento por sua espiritualidade e determinação. Como no momento em que mergulha no fundo do mar e consegue resgatar o amuleto de seu avô e o entrega a avó Flowers, que por sua vez, aguarda sabiamente, o melhor momento para devolvê-lo a Koro.

Quando percebe que sua persistência não está tendo resultados, Koro se isola muito deprimido. Interessante pensar que o sofrimento de Koro parece mexer com valores aquém em relação aos da neta. Embora muito triste e rejeitada, não desiste de amá-lo e de respeitar suas origens enquanto descendente de Paikea.

O filme culmina com o encalhe das baleias, “o ponto da virada”, dramaticamente envolvendo toda a comunidade, inclusive Koro. Enquanto todos unidos tentavam desencalhar as baleias, surgiu Pai, mesmo hostilizada pelo avô, ocupou seu lugar de verdadeira sucessora de Paikea, cavalgou a baleia conduzindo o baleal de volta ao oceano. Momento que me levou a pensar o quanto é importante rever determinadas crenças e costumes familiares para readaptá-los conforme a evolução histórica. Finalmente, Koro percebeu que suas atitudes estavam encalhando as mudanças necessárias para a manutenção da cultura, passando a Pai a tradição ancestral Whangara e, assim, impedindo que se perca no tempo.

 

 

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