quarta-feira, 2 de novembro de 2016



Comentários sobre o livro de Jean-Pierre Lebrun:


CLÍNICA DA INSTITUIÇÃO


O que a Psicanálise contribui para a vida coletiva




Jean-Pierre Lebrun inicia seu livro fazendo um questionamento sobre a extensão da psicanálise e sua eficácia aplicada na vida institucional. Em como a psicanálise pode contribuir para a vida coletiva, seja para pequenos grupos ou para toda uma sociedade. Ele observa que o mundo passa por um momento histórico de grandes mudanças, em que o laço social encontra-se variável e problemático. A subjetividade individual e a vida coletiva perdem a sua constituição patrocentrada, onde opera a recusa do real. Diante deste cenário, governar se tornou somente o que é possível. Aquele que ocupa um lugar de exceção, não consegue conduzir à unidade por não mais ter lugar privilegiado, devido a clivagem entre os discursos das vidas institucional e política versus a tão difícil realidade cotidiana. 






Lebrun versa apoiando-se nas teorias de Freud e Lacan, na tentativa de reinventar a vida coletiva, não mais no modelo de autoridade tradicional, mas, através do coletivo onde cada sujeito assume a responsabilidade dos seus atos. Com este trabalho, Lebrun demonstra como o psicanalista pode dar conta do percurso da vida dos grupos e da clínica, para enfrentar os novos perfis institucionais. 


Pelos capítulos do livro, Lebrun vai construindo um mosaico à partir de fragmentos das teorias de Freud e Lacan, para demonstrar como está organizada a vida coletiva, num momento histórico em que o laço social, sobretudo na dimensão do político, passa por uma profunda transformação. A sociedade perde a verticalidade incompleta e consistente, para uma estrutura horizontalizada, completa e inconsistente, que rompeu com a totalização do Um, com o transcendental, cuja autoridade era incontestável. Constata-se hoje uma inversão, onde opera uma recusa a qualquer sobrepujança. O sujeito não aceita mais ser governado porque busca sua própria via para garantir sua singularidade, e quem ocupa o lugar de exceção, tem dificuldade para promover a unidade. Segundo o esquema da sexuação de Lacan, Lebrun demonstra que o funcionamento do lado dos homens coexiste ao do lado das mulheres, este fato é irredutível. Evitar a organização patriarcal, não significa dar prevalência à mãe, pois, representaria a perda do discernimento em relação à cultura, como um resto não domesticado tendo como base a hostilidade. Nenhum sujeito pode fazer sua própria via sem instituir, afinal, a língua enoda o sujeito singular e o coletivo, o que possibilita o ato. Embora, o lado direito denote uma autoridade sem autor, um conjunto aberto, uma pluralidade, Lebrun comprovou que uma instituição sob o totalitarismo do Outro pode ser eficaz, por oferecer ao sujeito a possibilidade de um ato ético, pois, no seu estatuto de falasser deverá se orientar pelos seus valores, assumir a responsabilidade pelos seus atos e ter respeito às singularidades dos outros.


Diante da atual realidade, do mundo das satisfações imediatas, Lebrun percebe a necessidade de reinventar a vida coletiva, apostando na conscientização e educação cidadã, cujas normas e leis devem ser absorvidas por todos, de maneira que o real possa dar sentido ao simbólico. A aptidão à linguagem que obriga o sujeito à uma perda, possibilita as diferenças de lugares e fazer ato ao reconhecer as leis e normas. 


Ao psicanalista que trabalha na instituição, é preciso estar atento à sua posição para “ouvir os fenômenos institucionais com ouvido analítico” (pág.79) e conseguir analisar as ações inconscientes e identificar o corte entre os lugares. Todos os fatos institucionais, assim como, silêncios, lapsos e pontuações devem ser considerados como discursos. Lebrun destaca como a única arma de trabalho do psicanalista, a transferência que possibilitará abordar o que constitui o enodamento entre os sujeitos.



Referência Bibliográfica


LEBRUN, JEAN-PIERRE "Clínica da instituição:o que a psicanálise contribui para a vida coletiva" Porto Alegre ; CMC Editora

domingo, 23 de dezembro de 2012

A privação da facilitação ambiental e suas consequências na formação do self

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Donald Wood Winnicott (1896-1971)

As ideias de Winnicott trouxeram uma nova proposta terapêutica à psicanálise freudiana, sobretudo no que diz respeito à origem dos distúrbios psíquicos. Winnicott os compreende como decorrentes da falha ambiental tendo suas raízes anteriores ao complexo de Édipo. Desta forma, a teoria da sexualidade representa para Winnicott, apenas uma parte do desenvolvimento do ser humano.

Suas observações derivaram de seu trabalho com crianças e bebês, quando pôde notar que o desenvolvimento do ser humano é um processo contínuo envolvendo o corpo, a personalidade e a capacidade de relações. Winnicott afirma que “... nenhuma fase pode ser suprimida ou impedida sem efeitos perniciosos.”(pág.95) A seu ver, saúde significa maturidade. O ser humano terá saúde se não houver empecilhos em seu desenvolvimento emocional.

Ainda no ventre, o bebê desenvolve as primeiras percepções de mundo. Ao nascer, ele traz consigo esses referenciais e responderá ao ambiente de forma própria e distinta. O bebê nasce não integrado, ou seja, não há vínculo entre o corpo (soma) e a mente (psique), não há noção temporal nem espacial. O ambiente age como facilitador no processo de maturação que, a princípio, é representado pela mãe que, por sua vez, precisa se identificar com o bebê para conhecê-lo. Isto se dá através da “preocupação materna primária”, quando a mãe desenvolve a capacidade de se adaptar por completo às necessidades do bebê.

Nos primeiros seis meses de vida, o bebê encontra-se na fase de “dependência absoluta”. Isto significa que todos os cuidados dedicados a ele constituem segurança, saúde e prazer. A mãe apresenta o mundo ao bebê e permite que ele tenha a ilusão de criar as coisas conforme suas necessidades. Aos poucos, a mãe vai conseguindo recuar desta posição para outra, chamada por Winnicott de “dependência relativa”, cuja tarefa será conduzir, gradativamente, o bebê no processo de “desilusionamento”, à medida que ele demonstre aceitação da realidade externa.

Esta relação íntima saudável entre mãe e filho, funda a base da personalidade do bebê, de seu desenvolvimento emocional e fortalecimento psíquico. O vínculo será suficientemente bom se houver amor.

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    A Maternidade - Pablo Picasso (1905)

Para Winnicott, o bebê terá um bom princípio de vida se a mãe o reconhecer como uma pessoa e oferecer a ele o “holding” e o “handling” adequados. São termos usados por Winnicott para explicar que na formação do self, a maneira como a mãe segura o bebê em seu colo, o fato dele se sentir desejado e do contato físico com ela, seu ego (na visão de Winnicott tem a ver com instância psíquica) seja estabelecido. Para esta comunicabilidade entre mãe e bebê, Winnicott denominou de “experiência de mutualidade”, que também diz respeito às primeiras manifestações de amor entre ambos, sobretudo na alimentação (amor-boca), quando também se estabelece a comunicação a partir do olhar: a mãe observa o bebê e este se vê em seus olhos (imagem especular). O rosto da mãe é como um espelho capaz de libidinizar, quer dizer, dar sentido ao seu instinto, ao objeto. Trata-se do início de uma intersubjetividade entre ambos, o encontro de dois inconscientes (mãe-bebê). Somente com um bom holding, o bebê será capaz de diferenciar o seu “eu” e o que existe fora dele, “não eu” e alcançar o estágio de integração, processo este anterior à personalização.

“O prazer da mãe tem de estar presente nesses atos ou então tudo o que fizer é monótono, inútil e mecânico”. (p.28)

Segundo Winnicott, a mãe cuida para garantir ao bebê previsibilidade, tranquilidade e confiabilidade que auxiliarão na sua integração e personalização, ou seja, para a constituição do self – da experiência do bebê poder se perceber como um alguém ao longo do tempo. Este processo é mesclado com vivências de “não-integração”, ao introjetar o ego auxiliar da mãe, o bebê desenvolve a capacidade de estar só, considerado por Winnicott como um dos mais importantes sinais de saúde psíquica e de desenvolvimento emocional.

Quando não há apresentação de objeto, holding e handling adequados, o ego do bebê fica perturbado, não consegue se estabelecer ou se desenvolver conforme o processo de maturação. O bebê tem a sensação de despedaçamento, de enlouquecimento, de queda, de má percepção da realidade externa, dentre outras ansiedades classificadas como psicóticas (pag. 27). Winnicott descreve estas sensações como “agonias impensáveis” e aponta as falhas ambientais e as perturbações, como desencadeadoras de distúrbios psicossomáticos, sejam nas fases iniciais ou mais adiantadas do desenvolvimento, cujas defesas podem apresentar organizações do tipo esquizoides ou um falso self. Winnicott (1952) descreve o falso-self como sendo uma versão patológica do que seria uma personalidade normal, cuja origem está relacionada com uma adaptação não suficientemente boa no relacionamento do bebê com os objetos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

· WINNICOTT, D. W. “O brincar e a realidade” (J. O. Abreu e V. Nobre, trad) Ed. Imago, Rio de Janeiro, 1975.

· WINNICOTT, D. W. “A criança e o seu mundo” (1948), Zahar Editores S.A.- 6ª edição – Rio de Janeiro: 1982.

· WINNICOTT, D. W. “O ambiente e os processos de maturação” Porto Alegre: Artes Médicas. 1990.

sábado, 22 de setembro de 2012

O PILÃO E O CAFÉ

Bateu saudade dos meus avós! Tive o privilégio de conhecê-los e passar muitos anos ao lado deles. Meus avós moravam em uma casa cercada de flores e árvores frutíferas: além das roseiras, magnólias e sempre-vivas, haviam mexericas, goiabas, jabuticabas, cidras, limões-rosa (muito bons para combater gripes) e uns pezinhos de café, de onde meus avós colhiam os grãos, secavam e pilavam. Exatamente isso, pilavam! Naquela época, ter um pilão era como ter um multiprocessador nos dias de hoje. Todo mundo tinha um pilão! Grande, médio ou pequeno, não era propriamente um sonho de consumo e sim uma necessidade. O pilão dos meus avós era um modelo standard e ficava ao lado da porta da cozinha. Além desse, minha avó também usava outro pilão bem pequeno, tipo almofariz de metal, para pilar alho. Colher, torrar, socar os grãos no pilão somados às canções italianas e àquele cheirinho bom, ficaram registrados em minha memória. Meus avós pilavam os grãos de café! A tarefa era dividida entre os dois. Quando um cansava, passava a vez ao outro. Interessante é que eles não faziam aquilo com desprazer, ao contrário, lembro-me dos risos, da cumplicidade, uma verdadeira parceria no ato de pilar. Aquele bater cadenciado e firme: tum, tum, tum, fazia o meu coração bater no mesmo ritmo.

                                                     Mulher do Pilão - Cândido Portinari

Só entende de pilão quem tem ligação com a natureza, com a terra. Meus avós trabalhavam a terra e respeitavam a natureza. Eles olhavam para o céu e sabiam se ia chover, conheciam o canto dos pássaros e se o ano daria uma boa colheita. Candido Portinari pintou a “Mulher do Pilão”, cujos pés e mãos são grandes como todos os outros personagens de suas telas, provavelmente para demonstrar o seu reconhecimento e respeito para com aqueles que trabalham a terra.

                                                              Café - Cândido Portinari

Quem trabalha a terra, respeita a natureza, portanto, são pessoas sensíveis. Meus avós eram sensíveis e estavam sempre de bom humor, talvez porque, o ato de pilar os grãos de café possibilitava a elaboração das fantasias e de impulsos agressivos: eles socavam, trituravam, esmagavam, estilhaçavam os grãos. Dramaticamente terapêutico! A recompensa era a satisfação do aroma e o prazer de saborear um delicioso café. Que saudades dos meus avós!

Canções do Folclore Italiano: Matinatta / Va’ pensiero

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Dia do Psicólogo - 27 de agosto



A psicologia no Brasil foi regulamentada em 27 de agosto de 1962. Neste meio século, a nossa atuação ganhou espaço em muitas áreas além da clínica. Hoje, a sociedade como um todo reconhece a importância do psicólogo e sua participação nas resoluções, debates, propostas e contribuições. Tenho orgulho de ser psicóloga! Parabéns à todos os colegas!

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

CORALINE E O MUNDO SECRETO

O filme foi dirigido por Henry Selick: “Coraline e o Mundo Secreto”, uma adaptação do livro “Coraline”, do escritor Neil Gaiman. Este texto relacionará a simbologia encontrada em algumas cenas, com os conceitos teóricos de Melanie Klein.


O filme conta a história de Coraline Jones, uma menina aos onze anos de idade, filha única, cujos pais escritores encontram-se muito ocupados com o trabalho e não lhe dão a devida atenção. A história começa com a família chegando de mudança em um antigo casarão chamado “Palácio Cor-de-Rosa”. A senhoria não aceitava famílias com crianças porque, sua irmã desapareceu misteriosamente quando ainda era criança. O lugar é sombrio, chove com frequência, mas, apesar das chuvas, o jardim em frente ao casarão parece sem cuidados e quase sem vida. Chama a atenção o fato de os pais de Coraline se dedicarem a escrever um catálogo sobre jardinagem, mas, parecem indiferentes ao jardim que jaz em frente às janelas. Coraline critica sua mãe por não deixá-la brincar na chuva e na lama: “Você e papai são pagos para escrever sobre plantas e odeiam terra!”, diz ela. Por muitas vezes Coraline tenta atrair a atenção de seus pais absorvidos pelo trabalho. Mas, eles sempre dão um jeito para que ela se afaste, fique longe deles, se entretenha com qualquer outra coisa, mas, não os atrapalhe. Coraline tenta dialogar com a mãe, mas, ela não corresponde. Há um momento em que Coraline comenta que quase caiu em um poço e que poderia ter morrido. A mãe responde displicente: “Que legal!”. Também não deu importância para a alergia na mão da filha causada pela varinha de rabdomante.

É nítida a inversão de papéis das figuras parentais: a mãe é dominadora, autoritária e ríspida com a filha. O pai trata a esposa como “a chefe” e mostra-se submisso às suas vontades. Pertence ao pai a tarefa de cozinhar, nunca à mãe. São questões que vão sendo apontadas na fala de Coraline que não consegue ter essa mãe como um objeto total porque esta não corresponde aos seus anseios. Assim como o pai, que em nada corresponde ao pai idealizado. O pai de Coraline, para livrar-se da filha, sugere à ela circular pelo casarão para listar todas as portas, as janelas e tudo o que é azul. A cor azul é considerada uma cor fria e prevalece na maior parte do filme. Dentre seus diversos significados, pode estar associada à monotonia, à depressão, deixando o ambiente formal, porém, sem graça pela ótica da criança. Pode indicar a maneira como Coraline está percebendo a realidade: “Incrivelmente chata!”, como ela mesma o diz. Porém, em muitos momentos, Coraline é contrária à opinião de sua mãe quanto a impressão que tem dos vizinhos: Sr Bobinsk, o misterioso domador de ratos e as duas senhoras April Spink e Mirian Forcible, ex-atrizes de espetáculos, que em determinado momento recitam “Hamlet” para ela, uma apologia ao complexo de Édipo. Além de dar o tom à realidade conforme seus conteúdos internos, Coraline tem o comportamento de oposição à mãe, bastante marcado em várias cenas.


Em uma cena em que a família está fazendo uma refeição, Coraline pergunta à sua boneca: “Acha que estão querendo me envenenar?”, referindo-se à comida preparada por seu pai, sendo obrigada a comê-la. Trata-se de um momento em que a relação de objeto está sendo claramente ruim, sente-se ameaçada, demonstra medo, conteúdo da ansiedade da fantasia de agressão causada pela frustração excessiva. Melanie Klein (1946) fala sobre a projeção, a introjeção e o processo de cisão na organização do aparelho psíquico. A relação com os pais (seus objetos externos) não está em conformidade com suas fantasias inconscientes dos pais idealizados em seu mundo interno. Coraline tem que lidar com a frustração, a falta de liberdade e a raiva provocadas pela insensibilidade e desafeto desses pais, com a separação de partes da sua vida que ficaram para trás com a mudança de casa, como os amigos, a escola e, também, com a fase de desenvolvimento em que se encontra: Coraline está entrando na puberdade, passando por conflitos típicos desta fase. Essa transmutação gera em Coraline muita angústia revelada nas cenas em que diz: “Não tenho mais idade para brincar com bonecas!” e: “Não tenho mais cinco anos de idade!”. Em suas observações, Klein (1932) afirma que “na puberdade, as manifestações de angústia e dos afetos se exprimem com uma intensidade infinitamente maior do que no período de latência e constituem uma espécie de recrudescimento das descargas de angústia”.


A relação de Coraline com os pais, principalmente com a figura frustradora, a mãe, é bem cindida. Desse modo, o ego fica vulnerável, pois, também pode cindir-se, portanto, passa a buscar gratificação, pode ser através da idealização originada dos desejos pulsionais. Coraline sai à procura de um velho poço andonado usando uma varinha de rabdomante, na verdade não indica o lugar do poço, mas, demonstra sua necessidade inconsciente de obter satisfação da curiosidade, de seus desejos. O poço pode simbolizar o misterioso inconsciente que quanto mais fundo se consegue penetrar, mais se conhece seu conteúdo: “... dizem que ele é tão fundo que se cair dentro dele e olhar para cima, verá o céu cheio de estrelas em plena luz do dia!” parafraseado na fala de Whyborn Lovat, cujo apelido Whybie conhece Coraline e passa a fazer parte da história em muitos momentos, porém, é um personagem criado exclusivamente para o filme para Coraline ter com quem conversar. Para saber o nome de Coraline, ele pergunta: “Qual o seu carma?” Coraline responde: “Meu nome não é nenhum carma! É Coraline!”. Na verdade seu nome é um carma no sentido de uma consequência do nascimento, porque naquele lugar ninguém pronuncia seu nome corretamente, fato que a deixa sempre irritada. Porém, logo, não mais corrige as pessoas. Reafirmando Martins (1991- In: Rabinovich e cols.): “O inconsciente pesa sobre o nome de cada um, é suporte da representação psíquica primária e fruto do desejo de um outro e funciona como uma fantasia inconsciente fabricando sentido”.

Whybie presenteia Coraline com uma boneca semelhante a ela, cujos olhos são de botões. A boneca pode representar a Coraline na sua essência (self), sua parte infantil que vai ficando para trás como consequência do amadurecimento. Whybie também apresenta à Coraline, o gato como sendo selvagem e sem dono. Devido ao seu poder de transitar tanto no mundo real quanto no ideal, à sua astúcia e sensatez, ele pode representar parte do ego de Coraline. 



O casarão não parece aconchegante, quase sem mobílias, sobretudo o quarto de Coraline, sem colorido nas paredes, com uma rachadura no teto, poucos brinquedos, totalmente impessoal, nem um pouco parecido com um quarto de menina. Sentindo-se só e sem ter o que fazer, Coraline começa a explorar o lugar e descobre uma porta quando aberta dá em uma parede. Curiosa e com impulsos instintivos aguçados por encontrar vazão, Coraline tem um sonho. Neste sonho, Coraline é conduzida por um rato até a pequena porta. Ao abri-la, se depara com um túnel que a conduz à outro mundo. Vislumbrada com o túnel, que se assemelha a entrada de um útero, Coraline engatinha por ele até a outra porta. Segundo Klein (1848), a porta e a chave são símbolos que representam a entrada e saída do interior do objeto, assim como a chave, o pênis do pai. Penetrar este túnel significa entrar no corpo da mãe, realizando o desejo de controle, de força e de poder sobre ela. Segundo Klein (1948), “as fantasias sádicas concernentes ao interior do corpo da mãe constituem uma relação fundamental da criança com o mundo exterior e a realidade”. O resultado da interação entre a projeção dos impulsos sádicos de Coraline e a introjeção de seus objetos favorecerão sua adaptação e aceitação à realidade. Neste outro mundo, Coraline tem todos os seus desejos satisfeitos. Ela encontra seus pais idealizados, a “outra mãe” (a Bela Dama) e o “outro pai”, ambos com botões no lugar dos olhos. Neste outro mundo tudo é permitido e ideal: a “outra mãe” prepara comidas gostosas, compra roupas coloridas do gosto de Coraline e brinca com ela. O “outro pai” toca piano, canta para ela uma canção em que a chama de “bonequinha” e não de “bruxinha”, como na canção do pai real. Ele usa pantufas e faz um jardim com formato do rosto de Coraline. Este jardim exuberante vai desabrochando ou "excitando” conforme Coraline passa por entre as flores coloridas com formatos fálicos e que fazem cócegas. Em duas cenas de cumplicidade entre Coraline e seu “outro pai”, ficam marcados impulsos edípicos como uma forma de gratificação. Há uma cena em que a “outra mãe” manda a filha e Whybie irem para o quarto. A angústia provocada por múltiplos objetos do mundo real levando-a a ficar com “olhos atentos”, no mundo ideal os olhos são de botões. Não existe espiação e nem tão pouco expiação. Os “outros pais” permitem que ela brinque na chuva com lama. Seu quarto é aconchegante, colorido e com cortinas, os “outros pais” a levam para cama. Tudo parece perfeito. O sonho gerou seu oposto devido a situação conflitual em desejar o modelo dos pais idealizados em seu mundo interno. A “outra mãe” tenta convencê-la a ficar com eles, mas, com a condição de deixá-la costurar botões em seus olhos. É nesse momento que Coraline percebe que este mundo ideal tem armadilhas, pois, se ceder à vontade da bela dama perderá contato com a realidade. A “outra mãe”, que agora se revela uma aranha monstruosa (bruxa), aprisiona os pais reais de Coraline, que por sua vez sente culpa, começa a agir em busca de reparação. Coraline mune-se de armas (recursos) e com a ajuda do gato salva seus pais, tranca a porta e joga a chave no poço para que a bela dama jamais a encontre. Klein (1930) afirma em seus estudos que certa quantidade de ansiedade é necessária para a formação de símbolos e fantasias para que o Ego aprenda a lidar com a ansiedade para uma elaboração adequada. Quando reage contra a “outra mãe”, Coraline consegue equacionar os dois mundos, tanto o real quanto o ideal integrando-os. A culpa diminui, enquanto o ego se fortalece e consegue unir as partes cindidas, faz com que a clivagem entre os objetos persecutórios e os idealizados diminua, o que conduz a concluir que Coraline consegue manter preservada a sua integridade mental.

REFERÊNCIAS

- KLEIN, M. “Psicanálise da Criança” (1948), Tradução: Pola Civelli – 3ª edição – São Paulo:
Mestre Jou. 1981. Cap.5 pág. 119.

- KLEIN, M. “A Importância da Formação de Símbolos no Desenvolvimento do Ego”. In: Amor
Culpa e reparação e Outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago. 1930.

- KLEIN, M. “Uma Contribuição à Psicogênese dos Estados Maníacos Depressivos”. In: Amor,
Culpa e Reparação e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1935.

- KLEIN, M. “O Complexo de Édipo à Luz das Ansiedades Arcaicas”. In: Amor, Culpa e Reparação e
outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1948

- RABINOVICH, E. P., TAVAGLINE, D., COSER, A. C. P. H., ESTEVES, E. N. “Atribuição de
nomes Próprios e seu Papel no Desenvolvimento Segundo Relato dos Nomeados”. Texto extraído da
Revista .Bras.Cresc.Des.Hum. São Paulo, III (2): 119-137, 1993.

- FREUD, S. “A Interpretação dos Sonhos”. In: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud;

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

REPETIÇÃO À ELABORAÇÃO NO SETTING TERAPÊUTICO

Recordar, Repetir e Elaborar (1914) é um dos trabalhos de Freud que traz conceitos de repetição e de elaboração.

Na primeira fase da construção da técnica psicanalítica, o método catártico consistia em focalizar o momento em que o sintoma se formava através da recordação e da reprodução dos processos mentais envolvidos na situação, para descarregá-los na atividade consciente. Com o método da associação livre, o objetivo era descobrir o que o paciente deixava de recordar. Para isso, Freud utilizou como recurso a interpretação, para superar as críticas e censuras do paciente identificando suas resistências. Ao tomar conhecimento de suas resistências, o paciente consegue relacioná-las às situações esquecidas, tal como preencher lacunas na memória nesse processo de conscientização.

Em seus estudos, além dos fenômenos da transferência, da resistência e da repressão, Freud fala sobre a repetição. Na verdade, a repetição está relacionada à transferência e à recordação. A repetição tem suas raízes agregadas à infância, à sexualidade e à repressão. Freud percebe no psiquismo humano a existência de uma energia pulsional e que o organismo recebe estímulos tanto externos quanto internos que representam fontes de prazer e de desprazer e terá acesso à consciência à partir de suas representações. No momento em que não houve possibilidade de representação surge a repetição para uma nova tentativa de elaboração. Como disse Freud: são as lembranças encobridoras que permanecem na superfície da mente e que através da interpretação podem ser interceptadas e extraídas. Na opinião de Freud, em seu textoRecordar, Repetir e Elaborar, o paciente mantém reprimido o que esqueceu e expressa- o pela atuação (acting out) sem saber o que está repetindo: “Por exemplo, o paciente não diz que recorda que costumava ser desafiador e crítico em relação à autoridade dos pais; em vez disso, comporta-se dessa maneira para o médico”. (pág.200)

O paciente repete durante todo o tratamento, o que Freud denomina de compulsão à repetição, sendo esta a maneira do paciente recordar. Como parte deste processo ocorre a transferência para a figura do analista e também, para todas as situações cujos aspectos se assemelham à situação atual, nas suas atitudes, nos relacionamentos ou nas atividades desempenhadas. Nesta mesma ocasião ocorre a resistência que, conforme a amplitude ditará a intensidade da atuação com o propósito de evitar expor, na personalidade manifesta, suas inibições, sintomas, atitudes inúteis e traços patológicos de caráter.

O fenômeno da repetição demonstra ao analista que a doença deve ser tratada resgatando fragmentos do passado do paciente e atualizando-os no presente. Para Freud, o que irá ditar o sucesso do tratamento será a habilidade do analista para modificar o significado da transferência, transformando-a numa neurose de transferência ao reprimir a compulsão do paciente à repetição e permitir total liberdade de ação para que as pulsões que se acham ocultas na mente do paciente possam aflorar.

Freud enfatiza que revelar ao paciente suas resistências é o passo inicial no processo psicanalítico. Ao ser informado sobre suas resistências, o paciente necessita de um período para entendê-las, consequentemente, elaborá-las e superá-las dando continuidade ao trabalho psicanalítico.

O tempo de elaboração das resistências, segundo Freud, vai exigir coragem por parte do paciente e paciência do analista. Apesar deste tempo no processo de elaboração, a técnica psicanalítica revela-se diferenciada por operar resultados eficazes no paciente.