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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

CORALINE E O MUNDO SECRETO

O filme foi dirigido por Henry Selick: “Coraline e o Mundo Secreto”, uma adaptação do livro “Coraline”, do escritor Neil Gaiman. Este texto relacionará a simbologia encontrada em algumas cenas, com os conceitos teóricos de Melanie Klein.


O filme conta a história de Coraline Jones, uma menina aos onze anos de idade, filha única, cujos pais escritores encontram-se muito ocupados com o trabalho e não lhe dão a devida atenção. A história começa com a família chegando de mudança em um antigo casarão chamado “Palácio Cor-de-Rosa”. A senhoria não aceitava famílias com crianças porque, sua irmã desapareceu misteriosamente quando ainda era criança. O lugar é sombrio, chove com frequência, mas, apesar das chuvas, o jardim em frente ao casarão parece sem cuidados e quase sem vida. Chama a atenção o fato de os pais de Coraline se dedicarem a escrever um catálogo sobre jardinagem, mas, parecem indiferentes ao jardim que jaz em frente às janelas. Coraline critica sua mãe por não deixá-la brincar na chuva e na lama: “Você e papai são pagos para escrever sobre plantas e odeiam terra!”, diz ela. Por muitas vezes Coraline tenta atrair a atenção de seus pais absorvidos pelo trabalho. Mas, eles sempre dão um jeito para que ela se afaste, fique longe deles, se entretenha com qualquer outra coisa, mas, não os atrapalhe. Coraline tenta dialogar com a mãe, mas, ela não corresponde. Há um momento em que Coraline comenta que quase caiu em um poço e que poderia ter morrido. A mãe responde displicente: “Que legal!”. Também não deu importância para a alergia na mão da filha causada pela varinha de rabdomante.

É nítida a inversão de papéis das figuras parentais: a mãe é dominadora, autoritária e ríspida com a filha. O pai trata a esposa como “a chefe” e mostra-se submisso às suas vontades. Pertence ao pai a tarefa de cozinhar, nunca à mãe. São questões que vão sendo apontadas na fala de Coraline que não consegue ter essa mãe como um objeto total porque esta não corresponde aos seus anseios. Assim como o pai, que em nada corresponde ao pai idealizado. O pai de Coraline, para livrar-se da filha, sugere à ela circular pelo casarão para listar todas as portas, as janelas e tudo o que é azul. A cor azul é considerada uma cor fria e prevalece na maior parte do filme. Dentre seus diversos significados, pode estar associada à monotonia, à depressão, deixando o ambiente formal, porém, sem graça pela ótica da criança. Pode indicar a maneira como Coraline está percebendo a realidade: “Incrivelmente chata!”, como ela mesma o diz. Porém, em muitos momentos, Coraline é contrária à opinião de sua mãe quanto a impressão que tem dos vizinhos: Sr Bobinsk, o misterioso domador de ratos e as duas senhoras April Spink e Mirian Forcible, ex-atrizes de espetáculos, que em determinado momento recitam “Hamlet” para ela, uma apologia ao complexo de Édipo. Além de dar o tom à realidade conforme seus conteúdos internos, Coraline tem o comportamento de oposição à mãe, bastante marcado em várias cenas.


Em uma cena em que a família está fazendo uma refeição, Coraline pergunta à sua boneca: “Acha que estão querendo me envenenar?”, referindo-se à comida preparada por seu pai, sendo obrigada a comê-la. Trata-se de um momento em que a relação de objeto está sendo claramente ruim, sente-se ameaçada, demonstra medo, conteúdo da ansiedade da fantasia de agressão causada pela frustração excessiva. Melanie Klein (1946) fala sobre a projeção, a introjeção e o processo de cisão na organização do aparelho psíquico. A relação com os pais (seus objetos externos) não está em conformidade com suas fantasias inconscientes dos pais idealizados em seu mundo interno. Coraline tem que lidar com a frustração, a falta de liberdade e a raiva provocadas pela insensibilidade e desafeto desses pais, com a separação de partes da sua vida que ficaram para trás com a mudança de casa, como os amigos, a escola e, também, com a fase de desenvolvimento em que se encontra: Coraline está entrando na puberdade, passando por conflitos típicos desta fase. Essa transmutação gera em Coraline muita angústia revelada nas cenas em que diz: “Não tenho mais idade para brincar com bonecas!” e: “Não tenho mais cinco anos de idade!”. Em suas observações, Klein (1932) afirma que “na puberdade, as manifestações de angústia e dos afetos se exprimem com uma intensidade infinitamente maior do que no período de latência e constituem uma espécie de recrudescimento das descargas de angústia”.


A relação de Coraline com os pais, principalmente com a figura frustradora, a mãe, é bem cindida. Desse modo, o ego fica vulnerável, pois, também pode cindir-se, portanto, passa a buscar gratificação, pode ser através da idealização originada dos desejos pulsionais. Coraline sai à procura de um velho poço andonado usando uma varinha de rabdomante, na verdade não indica o lugar do poço, mas, demonstra sua necessidade inconsciente de obter satisfação da curiosidade, de seus desejos. O poço pode simbolizar o misterioso inconsciente que quanto mais fundo se consegue penetrar, mais se conhece seu conteúdo: “... dizem que ele é tão fundo que se cair dentro dele e olhar para cima, verá o céu cheio de estrelas em plena luz do dia!” parafraseado na fala de Whyborn Lovat, cujo apelido Whybie conhece Coraline e passa a fazer parte da história em muitos momentos, porém, é um personagem criado exclusivamente para o filme para Coraline ter com quem conversar. Para saber o nome de Coraline, ele pergunta: “Qual o seu carma?” Coraline responde: “Meu nome não é nenhum carma! É Coraline!”. Na verdade seu nome é um carma no sentido de uma consequência do nascimento, porque naquele lugar ninguém pronuncia seu nome corretamente, fato que a deixa sempre irritada. Porém, logo, não mais corrige as pessoas. Reafirmando Martins (1991- In: Rabinovich e cols.): “O inconsciente pesa sobre o nome de cada um, é suporte da representação psíquica primária e fruto do desejo de um outro e funciona como uma fantasia inconsciente fabricando sentido”.

Whybie presenteia Coraline com uma boneca semelhante a ela, cujos olhos são de botões. A boneca pode representar a Coraline na sua essência (self), sua parte infantil que vai ficando para trás como consequência do amadurecimento. Whybie também apresenta à Coraline, o gato como sendo selvagem e sem dono. Devido ao seu poder de transitar tanto no mundo real quanto no ideal, à sua astúcia e sensatez, ele pode representar parte do ego de Coraline. 



O casarão não parece aconchegante, quase sem mobílias, sobretudo o quarto de Coraline, sem colorido nas paredes, com uma rachadura no teto, poucos brinquedos, totalmente impessoal, nem um pouco parecido com um quarto de menina. Sentindo-se só e sem ter o que fazer, Coraline começa a explorar o lugar e descobre uma porta quando aberta dá em uma parede. Curiosa e com impulsos instintivos aguçados por encontrar vazão, Coraline tem um sonho. Neste sonho, Coraline é conduzida por um rato até a pequena porta. Ao abri-la, se depara com um túnel que a conduz à outro mundo. Vislumbrada com o túnel, que se assemelha a entrada de um útero, Coraline engatinha por ele até a outra porta. Segundo Klein (1848), a porta e a chave são símbolos que representam a entrada e saída do interior do objeto, assim como a chave, o pênis do pai. Penetrar este túnel significa entrar no corpo da mãe, realizando o desejo de controle, de força e de poder sobre ela. Segundo Klein (1948), “as fantasias sádicas concernentes ao interior do corpo da mãe constituem uma relação fundamental da criança com o mundo exterior e a realidade”. O resultado da interação entre a projeção dos impulsos sádicos de Coraline e a introjeção de seus objetos favorecerão sua adaptação e aceitação à realidade. Neste outro mundo, Coraline tem todos os seus desejos satisfeitos. Ela encontra seus pais idealizados, a “outra mãe” (a Bela Dama) e o “outro pai”, ambos com botões no lugar dos olhos. Neste outro mundo tudo é permitido e ideal: a “outra mãe” prepara comidas gostosas, compra roupas coloridas do gosto de Coraline e brinca com ela. O “outro pai” toca piano, canta para ela uma canção em que a chama de “bonequinha” e não de “bruxinha”, como na canção do pai real. Ele usa pantufas e faz um jardim com formato do rosto de Coraline. Este jardim exuberante vai desabrochando ou "excitando” conforme Coraline passa por entre as flores coloridas com formatos fálicos e que fazem cócegas. Em duas cenas de cumplicidade entre Coraline e seu “outro pai”, ficam marcados impulsos edípicos como uma forma de gratificação. Há uma cena em que a “outra mãe” manda a filha e Whybie irem para o quarto. A angústia provocada por múltiplos objetos do mundo real levando-a a ficar com “olhos atentos”, no mundo ideal os olhos são de botões. Não existe espiação e nem tão pouco expiação. Os “outros pais” permitem que ela brinque na chuva com lama. Seu quarto é aconchegante, colorido e com cortinas, os “outros pais” a levam para cama. Tudo parece perfeito. O sonho gerou seu oposto devido a situação conflitual em desejar o modelo dos pais idealizados em seu mundo interno. A “outra mãe” tenta convencê-la a ficar com eles, mas, com a condição de deixá-la costurar botões em seus olhos. É nesse momento que Coraline percebe que este mundo ideal tem armadilhas, pois, se ceder à vontade da bela dama perderá contato com a realidade. A “outra mãe”, que agora se revela uma aranha monstruosa (bruxa), aprisiona os pais reais de Coraline, que por sua vez sente culpa, começa a agir em busca de reparação. Coraline mune-se de armas (recursos) e com a ajuda do gato salva seus pais, tranca a porta e joga a chave no poço para que a bela dama jamais a encontre. Klein (1930) afirma em seus estudos que certa quantidade de ansiedade é necessária para a formação de símbolos e fantasias para que o Ego aprenda a lidar com a ansiedade para uma elaboração adequada. Quando reage contra a “outra mãe”, Coraline consegue equacionar os dois mundos, tanto o real quanto o ideal integrando-os. A culpa diminui, enquanto o ego se fortalece e consegue unir as partes cindidas, faz com que a clivagem entre os objetos persecutórios e os idealizados diminua, o que conduz a concluir que Coraline consegue manter preservada a sua integridade mental.

REFERÊNCIAS

- KLEIN, M. “Psicanálise da Criança” (1948), Tradução: Pola Civelli – 3ª edição – São Paulo:
Mestre Jou. 1981. Cap.5 pág. 119.

- KLEIN, M. “A Importância da Formação de Símbolos no Desenvolvimento do Ego”. In: Amor
Culpa e reparação e Outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago. 1930.

- KLEIN, M. “Uma Contribuição à Psicogênese dos Estados Maníacos Depressivos”. In: Amor,
Culpa e Reparação e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1935.

- KLEIN, M. “O Complexo de Édipo à Luz das Ansiedades Arcaicas”. In: Amor, Culpa e Reparação e
outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1948

- RABINOVICH, E. P., TAVAGLINE, D., COSER, A. C. P. H., ESTEVES, E. N. “Atribuição de
nomes Próprios e seu Papel no Desenvolvimento Segundo Relato dos Nomeados”. Texto extraído da
Revista .Bras.Cresc.Des.Hum. São Paulo, III (2): 119-137, 1993.

- FREUD, S. “A Interpretação dos Sonhos”. In: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud;

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

REPETIÇÃO À ELABORAÇÃO NO SETTING TERAPÊUTICO

Recordar, Repetir e Elaborar (1914) é um dos trabalhos de Freud que traz conceitos de repetição e de elaboração.

Na primeira fase da construção da técnica psicanalítica, o método catártico consistia em focalizar o momento em que o sintoma se formava através da recordação e da reprodução dos processos mentais envolvidos na situação, para descarregá-los na atividade consciente. Com o método da associação livre, o objetivo era descobrir o que o paciente deixava de recordar. Para isso, Freud utilizou como recurso a interpretação, para superar as críticas e censuras do paciente identificando suas resistências. Ao tomar conhecimento de suas resistências, o paciente consegue relacioná-las às situações esquecidas, tal como preencher lacunas na memória nesse processo de conscientização.

Em seus estudos, além dos fenômenos da transferência, da resistência e da repressão, Freud fala sobre a repetição. Na verdade, a repetição está relacionada à transferência e à recordação. A repetição tem suas raízes agregadas à infância, à sexualidade e à repressão. Freud percebe no psiquismo humano a existência de uma energia pulsional e que o organismo recebe estímulos tanto externos quanto internos que representam fontes de prazer e de desprazer e terá acesso à consciência à partir de suas representações. No momento em que não houve possibilidade de representação surge a repetição para uma nova tentativa de elaboração. Como disse Freud: são as lembranças encobridoras que permanecem na superfície da mente e que através da interpretação podem ser interceptadas e extraídas. Na opinião de Freud, em seu textoRecordar, Repetir e Elaborar, o paciente mantém reprimido o que esqueceu e expressa- o pela atuação (acting out) sem saber o que está repetindo: “Por exemplo, o paciente não diz que recorda que costumava ser desafiador e crítico em relação à autoridade dos pais; em vez disso, comporta-se dessa maneira para o médico”. (pág.200)

O paciente repete durante todo o tratamento, o que Freud denomina de compulsão à repetição, sendo esta a maneira do paciente recordar. Como parte deste processo ocorre a transferência para a figura do analista e também, para todas as situações cujos aspectos se assemelham à situação atual, nas suas atitudes, nos relacionamentos ou nas atividades desempenhadas. Nesta mesma ocasião ocorre a resistência que, conforme a amplitude ditará a intensidade da atuação com o propósito de evitar expor, na personalidade manifesta, suas inibições, sintomas, atitudes inúteis e traços patológicos de caráter.

O fenômeno da repetição demonstra ao analista que a doença deve ser tratada resgatando fragmentos do passado do paciente e atualizando-os no presente. Para Freud, o que irá ditar o sucesso do tratamento será a habilidade do analista para modificar o significado da transferência, transformando-a numa neurose de transferência ao reprimir a compulsão do paciente à repetição e permitir total liberdade de ação para que as pulsões que se acham ocultas na mente do paciente possam aflorar.

Freud enfatiza que revelar ao paciente suas resistências é o passo inicial no processo psicanalítico. Ao ser informado sobre suas resistências, o paciente necessita de um período para entendê-las, consequentemente, elaborá-las e superá-las dando continuidade ao trabalho psicanalítico.

O tempo de elaboração das resistências, segundo Freud, vai exigir coragem por parte do paciente e paciência do analista. Apesar deste tempo no processo de elaboração, a técnica psicanalítica revela-se diferenciada por operar resultados eficazes no paciente.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

UM BREVE COMENTÁRIO SOBRE SIGMUND FREUD


Nos textos de Freud, a cada leitura, se descobre mais e mais detalhes permeados em suas amplas ideias. Trata-se de um tecer intelectual tão acurado que qualquer descuido perde-se o sentido verdadeiro, sobretudo em relação à semântica. 

Ao idealizar o aparelho psíquico como aparelho de linguagem e, posteriormente, como aparelho de memória, Freud consegue vislumbrar toda a dinâmica dos fenômenos da mente humana na sua relação com o mundo e suas representações perceptivas e sensoriais.

Sabe-se do inconsciente e de seus fenômenos, e que para domá-lo é preciso dar à ele liberdade nas associações livres. É paradoxal! Ao revelar toda a energia pulsional ali contida, a mente humana torna-se vilã de si mesma. Primeiramente, tenta reprimir para evitar lidar com o que desconhece. Mas, como “o passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente” (Mario Quintana), ainda que o inconsciente tente resistir, esquecer ou reprimir, irá repetir e repetir e repetir. A eficácia da técnica psicanalítica é incontestável. Aos poucos, o inconsciente se dará por vencido. Suas resistências serão rompidas e acabará revelando seus segredos. Para se adequar ao mundo real precisa se conscientizar deles e desenvolver a capacidade de elaboração, de superação.

À Freud parece que nada escapou, e a técnica parece estar completa! Mas, é somente o início de uma longa jornada.

A lógica indica que para assimilar corretamente toda a teoria psicanalítica é preciso persistir, buscar em outras fontes outros saberes, outras teorias, todavia, com senso crítico. Freud criou uma ciência que não é estanque, ao contrário, sua flexibilidade possibilita ser reinventada a cada situação e a cada paciente.

FREUD, S. “Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud”