terça-feira, 27 de abril de 2021

Alguém sabe me dizer se pular gatos dá azar?

Espero que não, porque pulo dois gatos todos os dias, mais que uma vez ao dia. Eles se esparramam nos degraus da escada circular que leva ao consultório e ficam lá até eu encerrar o expediente. Na hora do almoço, esperam que eu os pule para depois me seguirem para dentro da casa. Quando retorno para atender os pacientes da tarde, eles estão lá ajeitados nos degraus para serem pulados novamente. Não movem nem o rabo do lugar, me obrigando de vez em quando, a subir ou descer dois degraus de uma só vez. E assim seguem meus dias: pular gatos ao subir, pular gatos ao descer! 

Pensei na sutil comunicação dos animais com os humanos. Este comportamento deles terá algum significado? Uma coisa é certa, estou mais reflexiva e observadora, o que é bom, pois, esqueço por um tempo as preocupações com pandemia, crise financeira, futuro, etc.

Por vezes, ao abrir a porta do consultório, me surpreendo com eles deitados no capacho. Para sair, tenho que pulá-los, é claro! Descobri que gatos ouvem atrás das portas! Se alcançassem o buraco da fechadura, com certeza espiariam também. Nem adianta chamar a atenção deles. Se fossem humanos, recomendaria análise urgentemente, não antes de constrange-los para não repetirem a façanha: “Que coisa feia, ouvindo atrás da porta?!?”. Mas, gatos não estão nem aí, não sentem vergonha!

          Existem muitas histórias sobre a existência dos gatos. Reza a lenda que os gatos surgiram do espirro de um leão. Eles foram cultuados como deuses e depois, considerados demônios. Imagino quantos bichanos foram martirizados, principalmente gatos pretos. É lamentável que, em pleno século XXI, ainda existam pessoas capazes de maltratá-los. Machado de Assis comentou em seu romance Quincas Borba (1891) que gatos parecem animais metafísicos: “Obedientes à natureza, gatos ficam contentes com que a vida lhes dá”. Machado de Assis deve ter sido gateiro! Aliás, gatos sempre estiveram ao lado de grandes escritores e nomes famosos. Lewis Carroll e seu gato sorridente, personagem inesquecível do conto “Alice no País das Maravilhas”. O famoso “Gato de Botas” do escritor francês Charles Perrault (1697). O Gato personagem intrigante do filme stop motion “Coraline e o Mundo Secreto” (2009). Os gatos inspiraram a Dra. Nise da Silveira em “Gatos, a Emoção de Lidar” (1998). Ela cuidava de vários gatos e considerava-os co-terapeutas no tratamento dos pacientes psiquiátricos. Não posso deixar de comentar sobre o musical “Cats” de Andrew Lloyd Webber, baseado no livro de T. S. Elliot e sobre o conto infantil de Jorge Amado “O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá”. Gatos foram fontes de inspiração até para grandes pintores como Renoir (“L’enfant au chat” - 1887), Gauguin (Eiaha Ohipa - 1896) e Picasso (Gato e Pássaro - 1939). Acredito que gatos tenham inspirado estes intelectuais porque são animais silenciosos, discretos, inteligentes, astutos e muito independentes. Dizem que gatos são traiçoeiros, imprevisíveis e atacam sem motivo. Não concordo! Gatos parecem fazer a leitura da alma dos humanos. Pode ter certeza, se atacam é porque percebem o obsessor, as más intenções ou a contaminação energética no ambiente. Talvez por isso provoquem aversão e medo em certas pessoas. Na verdade, o medo de gatos denuncia suas limitações, medo do desconhecido, medo do inatingível, do que parece impossível de enfrentar em si mesmas.

Lidar com gatos requer sensibilidade e disciplina. Gatos são fortes, imponentes e bonitos. Na convivência com esses felinos, percebo-os super atentos, engraçados, sinalizam quando a saúde requer atenção. Dormir com eles é muito gostoso! Eles são quentinhos e a frequência do ronronar é um excelente indutor natural do sono. Dizem que gatos têm 7 vidas. Eles têm uma única vida bem vivida que se prolonga por serem perspicazes e por não se intimidarem com dificuldades e obstáculos. Desafiam até a lei da gravidade, sempre caem em pé. Quando converso com eles, normalmente interagem comigo miando ou ronronando. Também percebi algo importante, aprendo muito com eles!

Convivo com o Freud e o Anakin, ambos gatos resgatados. O Freud é um senhor siamês de 14 anos, possui o estrabismo congênito, tem os olhos voltados para si. Embora apresente dificuldade para calcular profundidade e altura, Freud é bastante cauteloso. Ao contrário da maioria dos gatos, raramente evita estranhos, é muito sociável e adora crianças. O Anakin tem 12 anos, gato elegante e ágil, um excelente caçador. Sua pelagem acinzentada com listras, suas patas grandes e olhos esverdeados lembram um tigre. Entre eles existe uma hierarquia desenvolvida por eles próprios, onde o mais velho tem a prioridade. Gostam de brincar, normalmente é Anakin que convida. Ambos são super saudáveis e muito bacanas! Confesso que, pular gatos tem sido divertido! Tem me feito muito bem neste período de distanciamento social.

    Lembrei-me de uma antiga tradição africana e cheia de simbolismos. Ao final da cerimônia de casamento, os noivos pulam uma vassoura que representa varrer o passado para dar início a uma nova vida. Eu pulo gatos!! Qual a tradicionalidade disso? O termo “tradição” tem a ver com “transferência”. Tenho alguns palpites sobre pular gatos:  De certo, eles estão me induzindo a pensar sobre convivência, vínculos, sentimentos e emoções. Pode ser isso! Ou talvez queiram me ensinar que, na vida encontramos obstáculos, às vezes difíceis, porém, com esforço e determinação são todos transponíveis. Ou ainda quem sabe, me incentivar a manter ativa minha criança interior, pois, sem que eu perceba, me levam a brincar com eles. Ou queiram apenas me inspirar para escrever sobre eles. Seja qual for a resposta, continuarei a pular gatos, todos os dias.

       Espero que pular gatos traga sorte e melhor entendimento da realidade e acrescente dias aos meus dias de vida e nas deles também. 
Sou gateira com orgulho! Recomendo aos gateiros como eu: pulem seus gatos, conversem com eles, tirem um tempo para observá-los e brincar com eles. Acreditem-me, vocês vão se divertir muito! 











Sugestões

Música: "Memory" (do musical "Cats")

Livro: "Gatos, a Emoção de Lidar" Nise da Silveira.

Nota: Todas as informações sobre datas citadas no texto foram pesquisadas em publicações da internet. 

domingo, 19 de abril de 2020

Famílias confinadas: Como estão se relacionando?


O Relacionamento Familiar é um assunto muito importante e ao mesmo tempo delicado. A família é uma consequência da vida. Todo mundo pertence a uma. A maioria das famílias estão tendo a grande oportunidade de estarem juntas no período de isolamento social. Marido com a esposa, pais com os filhos ou somente a mãe com os filhos, avós com filhos e netos, várias constituições nucleares. Isso pode representar uma situação muito saudável e prazerosa.... ou não!  Sabemos que o núcleo familiar não é aquele modelo da foto, todos sorrindo abraçados, tudo certinho! O núcleo familiar é dinâmico e mutável. Na convivência familiar existem variações de comportamentos, de falas, de atuações, ocorrem muitas projeções e, por vezes, um ataca o outro, um transforma o outro em “bode expiatório”. Mulher que encrenca com marido; homem que descarrega sua raiva na mulher ou nos filhos; pais que discutem na presença dos filhos, enfim, estas tensões podem acontecer no contexto familiar. Imaginem a convivência familiar numa casa sem muito espaço, sem um mínimo de privacidade, gera a todos um grande estresse e irritabilidade, tendo como consequência a sensação de aprisionamento. É claro que as pessoas ficarão mais ansiosas e angustiadas. Existem aqueles casais que, mesmo antes do isolamento social, apresentavam situações conjugais mal resolvidas, conflitos, falta de sintonia e descontavam suas revoltas um no outro. Com o advento do Corona Vírus, estes problemas podem ter aumentado e a convivência ter se tornado insuportável!
A pergunta é: O que fazer com esta situação? Sabemos que o confinamento não tem um prazo definitivo para terminar. Por enquanto, devemos ficar isolados.
Então, as sugestões são: Enquanto mantivermos o confinamento, vamos procurar evitar as reclamações? Estamos todos na mesma situação, sem previsibilidade, temerosos com o futuro. Reclamações constantes vão corroendo, vão entristecendo, vão causando a sensação de incapacidade nos familiares, vão irritando a todos e não trazem soluções. Vamos procurar dialogar mais e criticar menos? Aliás, críticas não trazem bons resultados em condições de confinamento, ao contrário, podem levar a discussões e brigas.
O ato de DISCUTIR é quando a pessoa tenta impor sobre a outra seus pontos de vista, suas vontades, suas regras e exigências, situações que levam facilmente à graves desentendimentos. Ficam mais graves ainda, quando a convivência no isolamento envolve pessoas que apresentam um real comprometimento mental. Por exemplo, homens e mulheres que gritam. Homens que gritam e acreditam que a valentia garanta a eles poder, autoridade, virilidade (...só que não!!); mulheres que por qualquer razão gritam histericamente, com os filhos, com o marido e colocam a culpa neles por agirem assim ou culpam a TPM. Pode até envolver algum desequilíbrio fisiológico, mas, somente ele, não justifica os gritos. Palavrões, xingamentos, ofensas, ameaças, opressões, sarcasmos, toda forma de desrespeito ao outro, sobretudo em período de confinamento, pode gerar rebelião! Todos acabarão sofrendo, e pior, todos acabarão tristes e emocionalmente machucados.
Por outro lado, o ato de DIALOGAR é um exercício muito legal e salutar. Ao dialogar, as pessoas expressam seus sentimentos, deixam fluir ideias para melhorar o relacionamento, surgem possibilidades de compreensão mútua e de entendimento. Portanto, olhe para os olhos do outro, escute tudo o que a pessoa tem para falar, pense se você pode acrescentar alguma ideia. Se não pode, então, silencie! Se os ânimos começarem a esquentar, peça licença, vai ao banheiro, lave o rosto, as mãos, use álcool em gel, respire fundo. Existem problemas conjugais ou familiares que somente a psicoterapia ou um advogado poderão ajudar. É aconselhável deixar passar o período de confinamento para tomar providências cabíveis. Por enquanto, o correto é manter o respeito, tratar um ao outro com delicadeza e paciência e, acima de tudo, com amor.

sábado, 18 de abril de 2020

Isolamento Social: Como administrar a nova realidade?


Iniciamos o mês de abril ainda mantendo o isolamento social. Nos surpreendemos com a onda de contaminação que nos tirou da rotina, daquela previsibilidade diária que nos garantia uma certa liberdade de escolha. Ainda estamos nos adaptando às novas regras e condições para evitar a contaminação por Corona Vírus. São tantos detalhes e cuidados que dá a sensação de impotência. Pode demorar, mas, nós vamos conseguir!  
A situação de isolamento está nos desafiando e nos levando a pensar mais em nós mesmos. Trata-se de olhar para dentro de si, para o próprio eu. Como agíamos antes da pandemia? Éramos tão cuidadosos com a higiene corporal como estamos sendo agora? E com a higiene mental? E com os nossos familiares, cuidávamos deles tanto assim?
Antes da pandemia, nós estávamos envolvidos numa rotina de compromissos que, nem sempre sobrava tempo para sentarmos para conversar com nossos pais, maridos, filhos. Sabe aquele momento de preparar a mesa para uma refeição e todos se sentarem, se olharem e partilharem seus sentimentos? Só de imaginar dá uma sensação super agradável!
E a nossa casa? Estávamos cuidando dela com carinho? E aquela gaveta ou aquele armário, cuja bagunça deixávamos sempre para depois? Na visão psicanalítica, a casa é a nossa identidade, tem todo um aspecto afetivo de troca, de proteção e de segurança. Chegou a hora de pôr a nossa casa em ordem!
Apesar dos riscos da contaminação, de não sabermos quando as coisas voltarão ao “normal”, nós ainda podemos manter uma rotina, até para não ficarmos entediados, ansiosos ou mal humorados. Quem sabe agora consigamos “manter uma rotina produtiva e saudável”. Como podemos fazer isso? Precisamos encontrar saídas, enxergar possibilidades inteligentes, para lidar com a nova realidade. Pensamentos ruins, negativos ou limitantes, não trarão soluções. Lembrem-se, pensamentos ruins são raízes da Depressão. Vamos procurar pensar com clareza e objetividade. Pensar no que é útil, pensar no que é bom! Então, mãos à obra!

quarta-feira, 2 de novembro de 2016



Comentários sobre o livro de Jean-Pierre Lebrun:


CLÍNICA DA INSTITUIÇÃO


O que a Psicanálise contribui para a vida coletiva




Jean-Pierre Lebrun inicia seu livro fazendo um questionamento sobre a extensão da psicanálise e sua eficácia aplicada na vida institucional. Em como a psicanálise pode contribuir para a vida coletiva, seja para pequenos grupos ou para toda uma sociedade. Ele observa que o mundo passa por um momento histórico de grandes mudanças, em que o laço social encontra-se variável e problemático. A subjetividade individual e a vida coletiva perdem a sua constituição patrocentrada, onde opera a recusa do real. Diante deste cenário, governar se tornou somente o que é possível. Aquele que ocupa um lugar de exceção, não consegue conduzir à unidade por não mais ter lugar privilegiado, devido a clivagem entre os discursos das vidas institucional e política versus a tão difícil realidade cotidiana. 






Lebrun versa apoiando-se nas teorias de Freud e Lacan, na tentativa de reinventar a vida coletiva, não mais no modelo de autoridade tradicional, mas, através do coletivo onde cada sujeito assume a responsabilidade dos seus atos. Com este trabalho, Lebrun demonstra como o psicanalista pode dar conta do percurso da vida dos grupos e da clínica, para enfrentar os novos perfis institucionais. 


Pelos capítulos do livro, Lebrun vai construindo um mosaico à partir de fragmentos das teorias de Freud e Lacan, para demonstrar como está organizada a vida coletiva, num momento histórico em que o laço social, sobretudo na dimensão do político, passa por uma profunda transformação. A sociedade perde a verticalidade incompleta e consistente, para uma estrutura horizontalizada, completa e inconsistente, que rompeu com a totalização do Um, com o transcendental, cuja autoridade era incontestável. Constata-se hoje uma inversão, onde opera uma recusa a qualquer sobrepujança. O sujeito não aceita mais ser governado porque busca sua própria via para garantir sua singularidade, e quem ocupa o lugar de exceção, tem dificuldade para promover a unidade. Segundo o esquema da sexuação de Lacan, Lebrun demonstra que o funcionamento do lado dos homens coexiste ao do lado das mulheres, este fato é irredutível. Evitar a organização patriarcal, não significa dar prevalência à mãe, pois, representaria a perda do discernimento em relação à cultura, como um resto não domesticado tendo como base a hostilidade. Nenhum sujeito pode fazer sua própria via sem instituir, afinal, a língua enoda o sujeito singular e o coletivo, o que possibilita o ato. Embora, o lado direito denote uma autoridade sem autor, um conjunto aberto, uma pluralidade, Lebrun comprovou que uma instituição sob o totalitarismo do Outro pode ser eficaz, por oferecer ao sujeito a possibilidade de um ato ético, pois, no seu estatuto de falasser deverá se orientar pelos seus valores, assumir a responsabilidade pelos seus atos e ter respeito às singularidades dos outros.


Diante da atual realidade, do mundo das satisfações imediatas, Lebrun percebe a necessidade de reinventar a vida coletiva, apostando na conscientização e educação cidadã, cujas normas e leis devem ser absorvidas por todos, de maneira que o real possa dar sentido ao simbólico. A aptidão à linguagem que obriga o sujeito à uma perda, possibilita as diferenças de lugares e fazer ato ao reconhecer as leis e normas. 


Ao psicanalista que trabalha na instituição, é preciso estar atento à sua posição para “ouvir os fenômenos institucionais com ouvido analítico” (pág.79) e conseguir analisar as ações inconscientes e identificar o corte entre os lugares. Todos os fatos institucionais, assim como, silêncios, lapsos e pontuações devem ser considerados como discursos. Lebrun destaca como a única arma de trabalho do psicanalista, a transferência que possibilitará abordar o que constitui o enodamento entre os sujeitos.



Referência Bibliográfica


LEBRUN, JEAN-PIERRE "Clínica da instituição:o que a psicanálise contribui para a vida coletiva" Porto Alegre ; CMC Editora

domingo, 23 de dezembro de 2012

A privação da facilitação ambiental e suas consequências na formação do self

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Donald Wood Winnicott (1896-1971)

As ideias de Winnicott trouxeram uma nova proposta terapêutica à psicanálise freudiana, sobretudo no que diz respeito à origem dos distúrbios psíquicos. Winnicott os compreende como decorrentes da falha ambiental tendo suas raízes anteriores ao complexo de Édipo. Desta forma, a teoria da sexualidade representa para Winnicott, apenas uma parte do desenvolvimento do ser humano.

Suas observações derivaram de seu trabalho com crianças e bebês, quando pôde notar que o desenvolvimento do ser humano é um processo contínuo envolvendo o corpo, a personalidade e a capacidade de relações. Winnicott afirma que “... nenhuma fase pode ser suprimida ou impedida sem efeitos perniciosos.”(pág.95) A seu ver, saúde significa maturidade. O ser humano terá saúde se não houver empecilhos em seu desenvolvimento emocional.

Ainda no ventre, o bebê desenvolve as primeiras percepções de mundo. Ao nascer, ele traz consigo esses referenciais e responderá ao ambiente de forma própria e distinta. O bebê nasce não integrado, ou seja, não há vínculo entre o corpo (soma) e a mente (psique), não há noção temporal nem espacial. O ambiente age como facilitador no processo de maturação que, a princípio, é representado pela mãe que, por sua vez, precisa se identificar com o bebê para conhecê-lo. Isto se dá através da “preocupação materna primária”, quando a mãe desenvolve a capacidade de se adaptar por completo às necessidades do bebê.

Nos primeiros seis meses de vida, o bebê encontra-se na fase de “dependência absoluta”. Isto significa que todos os cuidados dedicados a ele constituem segurança, saúde e prazer. A mãe apresenta o mundo ao bebê e permite que ele tenha a ilusão de criar as coisas conforme suas necessidades. Aos poucos, a mãe vai conseguindo recuar desta posição para outra, chamada por Winnicott de “dependência relativa”, cuja tarefa será conduzir, gradativamente, o bebê no processo de “desilusionamento”, à medida que ele demonstre aceitação da realidade externa.

Esta relação íntima saudável entre mãe e filho, funda a base da personalidade do bebê, de seu desenvolvimento emocional e fortalecimento psíquico. O vínculo será suficientemente bom se houver amor.

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    A Maternidade - Pablo Picasso (1905)

Para Winnicott, o bebê terá um bom princípio de vida se a mãe o reconhecer como uma pessoa e oferecer a ele o “holding” e o “handling” adequados. São termos usados por Winnicott para explicar que na formação do self, a maneira como a mãe segura o bebê em seu colo, o fato dele se sentir desejado e do contato físico com ela, seu ego (na visão de Winnicott tem a ver com instância psíquica) seja estabelecido. Para esta comunicabilidade entre mãe e bebê, Winnicott denominou de “experiência de mutualidade”, que também diz respeito às primeiras manifestações de amor entre ambos, sobretudo na alimentação (amor-boca), quando também se estabelece a comunicação a partir do olhar: a mãe observa o bebê e este se vê em seus olhos (imagem especular). O rosto da mãe é como um espelho capaz de libidinizar, quer dizer, dar sentido ao seu instinto, ao objeto. Trata-se do início de uma intersubjetividade entre ambos, o encontro de dois inconscientes (mãe-bebê). Somente com um bom holding, o bebê será capaz de diferenciar o seu “eu” e o que existe fora dele, “não eu” e alcançar o estágio de integração, processo este anterior à personalização.

“O prazer da mãe tem de estar presente nesses atos ou então tudo o que fizer é monótono, inútil e mecânico”. (p.28)

Segundo Winnicott, a mãe cuida para garantir ao bebê previsibilidade, tranquilidade e confiabilidade que auxiliarão na sua integração e personalização, ou seja, para a constituição do self – da experiência do bebê poder se perceber como um alguém ao longo do tempo. Este processo é mesclado com vivências de “não-integração”, ao introjetar o ego auxiliar da mãe, o bebê desenvolve a capacidade de estar só, considerado por Winnicott como um dos mais importantes sinais de saúde psíquica e de desenvolvimento emocional.

Quando não há apresentação de objeto, holding e handling adequados, o ego do bebê fica perturbado, não consegue se estabelecer ou se desenvolver conforme o processo de maturação. O bebê tem a sensação de despedaçamento, de enlouquecimento, de queda, de má percepção da realidade externa, dentre outras ansiedades classificadas como psicóticas (pag. 27). Winnicott descreve estas sensações como “agonias impensáveis” e aponta as falhas ambientais e as perturbações, como desencadeadoras de distúrbios psicossomáticos, sejam nas fases iniciais ou mais adiantadas do desenvolvimento, cujas defesas podem apresentar organizações do tipo esquizoides ou um falso self. Winnicott (1952) descreve o falso-self como sendo uma versão patológica do que seria uma personalidade normal, cuja origem está relacionada com uma adaptação não suficientemente boa no relacionamento do bebê com os objetos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

· WINNICOTT, D. W. “O brincar e a realidade” (J. O. Abreu e V. Nobre, trad) Ed. Imago, Rio de Janeiro, 1975.

· WINNICOTT, D. W. “A criança e o seu mundo” (1948), Zahar Editores S.A.- 6ª edição – Rio de Janeiro: 1982.

· WINNICOTT, D. W. “O ambiente e os processos de maturação” Porto Alegre: Artes Médicas. 1990.

sábado, 22 de setembro de 2012

O PILÃO E O CAFÉ

Bateu saudade dos meus avós! Tive o privilégio de conhecê-los e passar muitos anos ao lado deles. Meus avós moravam em uma casa cercada de flores e árvores frutíferas: além das roseiras, magnólias e sempre-vivas, haviam mexericas, goiabas, jabuticabas, cidras, limões-rosa (muito bons para combater gripes) e uns pezinhos de café, de onde meus avós colhiam os grãos, secavam e pilavam. Exatamente isso, pilavam! Naquela época, ter um pilão era como ter um multiprocessador nos dias de hoje. Todo mundo tinha um pilão! Grande, médio ou pequeno, não era propriamente um sonho de consumo e sim uma necessidade. O pilão dos meus avós era um modelo standard e ficava ao lado da porta da cozinha. Além desse, minha avó também usava outro pilão bem pequeno, tipo almofariz de metal, para pilar alho. Colher, torrar, socar os grãos no pilão somados às canções italianas e àquele cheirinho bom, ficaram registrados em minha memória. Meus avós pilavam os grãos de café! A tarefa era dividida entre os dois. Quando um cansava, passava a vez ao outro. Interessante é que eles não faziam aquilo com desprazer, ao contrário, lembro-me dos risos, da cumplicidade, uma verdadeira parceria no ato de pilar. Aquele bater cadenciado e firme: tum, tum, tum, fazia o meu coração bater no mesmo ritmo.

                                                     Mulher do Pilão - Cândido Portinari

Só entende de pilão quem tem ligação com a natureza, com a terra. Meus avós trabalhavam a terra e respeitavam a natureza. Eles olhavam para o céu e sabiam se ia chover, conheciam o canto dos pássaros e se o ano daria uma boa colheita. Candido Portinari pintou a “Mulher do Pilão”, cujos pés e mãos são grandes como todos os outros personagens de suas telas, provavelmente para demonstrar o seu reconhecimento e respeito para com aqueles que trabalham a terra.

                                                              Café - Cândido Portinari

Quem trabalha a terra, respeita a natureza, portanto, são pessoas sensíveis. Meus avós eram sensíveis e estavam sempre de bom humor, talvez porque, o ato de pilar os grãos de café possibilitava a elaboração das fantasias e de impulsos agressivos: eles socavam, trituravam, esmagavam, estilhaçavam os grãos. Dramaticamente terapêutico! A recompensa era a satisfação do aroma e o prazer de saborear um delicioso café. Que saudades dos meus avós!

Canções do Folclore Italiano: Matinatta / Va’ pensiero