quinta-feira, 12 de setembro de 2024

 Tempo de Travessia

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos".  (Fernando Teixeira de Andrade -1946/2008).

Somos seres de mudanças e seguimos a vida numa luta constante para nos adaptarmos as mais diversas situações. Talvez, o maior segredo da vida seja se permitir seguir em frente, apesar de tudo. Sempre de olhos bem abertos as possibilidades, descobrir novos caminhos, experimentar algo novo. Sim, temos escolhas: podemos ficar repetindo as mesmas situações e desculpas por comodismo, por medo, por não nos considerarmos capazes, ou podemos romper com tudo que nos limita e encararmos a travessia.  





 

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

“Encantadora de Baleias” - Alguns comentários sobre o filme

Assistir a um filme e prestar atenção em todos os detalhes das cenas, dos figurinos, dos eventuais erros de continuidade, das performances dos atores e refletir sobre a trama, em outros tempos passariam quase desapercebidos, tamanha velocidade do consumo.  O “novo normal” mudou a rotina e o ritmo das coisas. 

Quando assisti ao filme “Encantadora de Baleias” (While Rider- 2003), percebi detalhes do enredo que me emocionaram, talvez por este momento tão delicado em que comunidades e famílias ainda sofrem impactos da pandemia. Trata-se de um drama roteirizado e dirigido por Nikola Jean Caro (Niki Caro). Ela nasceu na Nova Zelândia e conseguiu retratar de forma simples e emocionante a cultura Maori, a qual considero fascinante. A história se passa ao leste da Nova Zelândia, numa comunidade chamada Whangara. O enredo do filme faz referência a uma das muitas lendas Maori. Há milhares de anos, um ancestral chamado Paikea conduziu seu povo até novas terras cavalgando uma baleia. E a cada geração espera-se que um primogênito ocupe o lugar de líder espiritual do povo.

 Quando seu filho mais velho, Porourangi e sua esposa aguardavam a chegada de um casal de gêmeos, Koro – pai de Porourangi, líder da comunidade – esperava que um menino viesse ao mundo para garantir a tradição milenar. Durante o parto, o menino tão esperado e a nora de Koro morreram. Porém, a menina sobreviveu e recebeu o nome de “Pai” em homenagem ao ancestral Paikea. Mas, Koro queria um neto sucessor. Com a dolorosa perda da esposa e do filho, Porourangi vai para a Europa e deixa a filha aos cuidados da avó Flowers.  

A menina Pai foi crescendo muito apegada ao avô Koro, nutrindo profundo respeito e admiração por ele. Inclusive, nota-se características muito semelhantes a personalidade do avô. Ela era inteligente, autoritária e corajosa. Demonstrava curiosidade e questionava seu avô sobre a origem de seu povo e suas tradições. Numa das cenas, Koro contou a Pai que seu povo viera de Hawaiki, onde habitam os ancestrais. Com um pedaço de corda, Koro ilustra à Pai o quanto é importante que a linhagem ancestral continue entrelaçada, resistente e forte. Passar adiante o legado cultural, garante manter a identidade da comunidade e a construção da subjetividade de seus membros. Mas, nas mãos de Koro, a corda se partiu. Quando Koro se afasta para buscar outra corda, Pai consegue reatá-la. Ao retornar, Koro ralha com a neta dizendo que ela poderia ter se machucado, ao invés de reconhecer o quanto foi habilidosa e determinada. Ela conseguiu ligar o motor do barco com a corda reatada por ela. A cada cena, Pai vai sinalizando sua capacidade de liderança.

Koro fundou na comunidade, uma escola para adolescentes primogênitos para ensiná-los sobre os antigos costumes sagrados. Ele queria treiná-los para no final escolher aquele que seria dotado de força, coragem, determinação, inteligência e liderança para ocupar o papel do líder Paikea. No entanto, proibia a neta de frequentá-la para não macular a tradição destinada somente aos homens. O machismo permeia o relacionamento de Koro com a neta e com as mulheres da comunidade. Koro não reconhecia a importância do feminino na manutenção da tradição cultural e familiar. Durante o filme, percebe-se o quanto Flowers é sensível às situações, podendo ser considerada o “bom senso" que Koro não tem. Ele esbanja aspereza, dureza, insensibilidade, tal qual as esculturas entalhadas em madeira. Flowers representa uma mulher forte, firme e sábia, a ponto de escolher o momento de falar e de calar. Lembrei-me de um vídeo sobre sociedades matriarcais, cuja especialista no assunto, Dra. Goettner-Abendroth, fala sobre as diferenças do modelo matriarcal frente ao patriarcal, onde prevalece a igualdade de direitos, o valor do coletivo, a política sem disputas de poder, portando, mostra-se um sistema mais realista, onde a figura materna é importante na formação de uma base familiar sólida. Ela conclui que o matriarcado não é o avesso do patriarcado, não tira do homem seu valor e nem enfraquece seu lugar de autoridade.           

A menina Pai se esforçava para agradar seu avô, que por sua vez, estava cego por encontrar um novo líder e surdo por não conseguir escutar o lamento das baleias que anunciavam o sofrimento de seu povo. A comunidade parece ser pequena, sem muitos recursos econômicos e com problemas de ordem social.

Koro não percebia o quanto magoava a todos ao seu redor. “Um comandante muito austero, irredutível, atravessa os sentimentos dos seus comandados e os incita ao motim”. (Jean-Pierre Lebrun). Por conta de sua teimosia e rigidez, Koro desprezava os valores e potenciais de seus filhos, da neta e de outros habitantes local. Percebe-se em algumas cenas, a expressão de desmotivação das pessoas quando Koro está por perto. Em sua ausência, as mulheres se reuniam para beber, fumar e jogar, os jovens se drogavam e pareciam sem direcionamento na vida. Com essa postura, Koro estava dizimando a comunidade levando sofrimento a sua família, sobretudo à sua neta, ao invés de promover união.

Koro despreza o potencial artístico de Porourangi e fica transtornado ao saber que ele tem uma namorada alemã e que terá um filho com ela. Koro também não valorizou o filho caçula, Rawiri, não percebeu nele características de líder e nem reconheceu seu talento como um exímio lutador de Taiaha (um bastão pontudo de 1,5m de altura). Rawiri tornou-se usuário de drogas, obeso e relaxado com a aparência. Ele se sente valorizado e começa a se cuidar quando a menina Pai o convida para ensiná-la a usar o Taiaha. Pai passa a receber de toda a comunidade reconhecimento por sua espiritualidade e determinação. Como no momento em que mergulha no fundo do mar e consegue resgatar o amuleto de seu avô e o entrega a avó Flowers, que por sua vez, aguarda sabiamente, o melhor momento para devolvê-lo a Koro.

Quando percebe que sua persistência não está tendo resultados, Koro se isola muito deprimido. Interessante pensar que o sofrimento de Koro parece mexer com valores aquém em relação aos da neta. Embora muito triste e rejeitada, não desiste de amá-lo e de respeitar suas origens enquanto descendente de Paikea.

O filme culmina com o encalhe das baleias, “o ponto da virada”, dramaticamente envolvendo toda a comunidade, inclusive Koro. Enquanto todos unidos tentavam desencalhar as baleias, surgiu Pai, mesmo hostilizada pelo avô, ocupou seu lugar de verdadeira sucessora de Paikea, cavalgou a baleia conduzindo o baleal de volta ao oceano. Momento que me levou a pensar o quanto é importante rever determinadas crenças e costumes familiares para readaptá-los conforme a evolução histórica. Finalmente, Koro percebeu que suas atitudes estavam encalhando as mudanças necessárias para a manutenção da cultura, passando a Pai a tradição ancestral Whangara e, assim, impedindo que se perca no tempo.

 

 

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

REFLEXÕES SOBRE LUTO

          Como psicóloga, acompanho muitas pessoas e famílias que passaram ou ainda estão passando por algum tipo de perda. Inevitavelmente, a vida dessas pessoas mudou! Sobretudo, para aquelas que sofreram a perda de entes queridos, amigos ou pessoas próximas. Quando vínculos se rompem, quando há separações ou perdas, seja pelo término de um relacionamento, pelas mudanças significativas na vida ou por mortes, as pessoas se vêm diante da dor do luto. Comentarei sobre o luto por ocasião da morte de alguém muito amado.
          Embora, num primeiro momento, as pessoas demonstrem grande fragilidade e profunda tristeza, o processo de luto é diferente para cada um. Não é possível padronizar e nem saber quanto tempo irá durar, pois cada um tem suas próprias necessidades e maneiras de expressar seus sofrimentos e todos têm o direito de ser ouvido e de ter sua dor respeitada.
         Quando um membro da família se vai, surge a necessidade de se reorganizar e de rever o vínculo de afeto, pois com a morte, a estrutura da dinâmica familiar sofre mudanças. Um sentimento muito comum observado por pacientes enlutados é a culpa. Além da tristeza, da raiva, as pessoas sentem-se culpadas por acreditar que falharam em algo e que podiam ter evitado a perda. Outras reações também consideradas comuns são a sensação de vazio, angústia, dor no peito, cansaço, pensamentos confusos, alteração do sono e do apetite. Antigamente, se descrevia o processo de luto como período de “nojo”, “estar de nojo”. De fato, a pessoa enlutada passa por grandes oscilações de sentimentos e emoções para conseguir ressignificar a perda, elaborar a ausência e dar novo sentido à vida. 
          Crianças vivem o luto? Diante da morte de entes queridos, crianças sofrem o impacto da mudança em seu mundo presumido, e também vivem o luto que é diretamente influenciado pelos recursos de enfrentamento dos familiares. É de grande importância informar a realidade para a criança e oferecer a ela o tempo que precisar para se readaptar, garantir acima de tudo proteção e disponibilidade de escuta sempre que ela sentir vontade de falar sobre a perda.
          Para que sofremos perdas? Qual o sentido de passarmos pela dor do luto? Para nos fazer perceber o quanto somos capazes de amar, e que esse amor não se esgota na ausência de quem se foi. Ele permanece forte e, é a partir desse amor durante o processo do luto que surgirá a possibilidade de nos reconstruirmos mais capazes e transformados.

Quem tem um animal de estimação tem diversão garantida!


Há um pouco mais de 12 mil anos, os animais começaram a ser domesticados. Cães e gatos passaram a ocupar um lugar dentro do núcleo familiar. Ainda mais com o avanço da ciência e da tecnologia, foi possível descobrir como são perspicazes e importantes para promover bem-estar e saúde às pessoas.

Com eles aprendemos a cuidar, a ter compaixão, tolerância, nos tornamos mais disciplinados, organizados e higiênicos. Exercitamos a troca de afeto diária, descobrimos o amor incondicional e a diversão. Sim, a diversão! Mesmo os humanos mais sisudos, não resistem aos encantos de um pet! Ainda mais quando ele traz a bolinha até você, automaticamente, você se vê compelido a arremessá-la. Quando se dá conta, sua criança interior despertou e você está brincando e se divertindo!

Quem tem um animal de estimação tem alegria! E as conversas? São excelentes companheiros e ouvintes. Cães e gatos ganharam status de quase humanos. Pena não possuírem o domínio da linguagem. Embora alguns pareçam verbalizar “I love you!” ou “Magoou!”.

Normalmente, meus gatos Freud e Anakin interagem comigo miando ou ronronando. Ao cumprimentá-los todas as manhãs, eles parecem responder “Olá!”. Cães e gatos se adaptaram super bem aos costumes dos humanos, até mesmo a alimentação. Conheço um cãozinho chamado Scooby que adora brócolis e tomates. A Mia é uma gata bastante exigente e o Gadie um gato charmoso e cheio de melindres.

Descobriu-se que os animais têm um valor terapêutico inestimável. Em contato com eles, ao abraçá-los ou acariciá-los, ocorre a produção de neurotransmissores que dão sensação de prazer e de bem estar, aumenta a imunidade, regula os níveis de colesterol e a pressão arterial, diminuindo os riscos de problemas cardíacos, além de combater o estresse e controlar a ansiedade.

Crianças que crescem com um animal de estimação, aprendem logo cedo a respeitar a natureza e tornam-se mais resistentes a alergias. Meu neto está crescendo com a Mini, uma cachorrinha muito carinhosa e sensível que cuida dele como se fosse sua cria.

Quer conhecer uma família? Observe o comportamento dos animais de estimação. Eles desenvolvem hábitos compatíveis com os costumes do ambiente e, melhor que isso, com muita sutileza, sinalizam quando algo não vai bem porque pressentem o perigo ou quando alguém precisa de cuidados da saúde.

Na década de 50, a psiquiatra Dra. Nise da Silveira cuidava de vários gatos e utilizava-os como co-terapeutas nos tratamentos dos pacientes psiquiátricos. Hoje em dia, muitos animais são co-terapeutas em diversos tipos de tratamentos como portadores da síndrome do autismo, pacientes com câncer, portadores de Alzheimer, pacientes com limitações físicas ou mentais. Cães são treinados e são imprescindíveis para resgates em desastres e investigações policiais. Há pouco tempo, cães e gatos ganharam espaço nos meios de transportes, também são aceitos em hotéis, shoppings e em centros comerciais. Por sorte, existem leis rígidas que os protegem dos maus tratos.

Quem tem um pet concordará comigo, eles são espontâneos, não fazem distinção, não são preconceituosos, não mentem, são leais e são, verdadeiramente, os melhores amigos.

                  

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Implicações Psicológicas e Emocionais na Obesidade

- “Eu engordei!”

- “Não estou gostando da minha imagem no espelho!”

- “Minhas roupas não me servem mais!”

- “Estou me sentindo uma bola!”

- “Às vezes penso: aonde vou parar desse jeito?”

- “Há anos luto contra a balança!”

- “Mal comecei a ir para a academia e desanimei!”

São queixas comuns nas sessões de psicoterapia. O que acontece com esses pacientes? Sabemos que a obesidade pode acarretar doenças crônicas como a hipertensão, o diabetes, problemas cardíacos, nas articulações, dentre outras. No entanto, existem doenças fisiológicas, cujos sintomas podem levar a obesidade, como as alterações hormonais e metabólicas, juntamente a maus hábitos alimentares ou, o que é mais comum, condicionamentos da infância.

Lembrei-me daquela antiga tradição a qual dizia que criança saudável é criança gordinha! Tem que raspar o prato para ter direito a sobremesa! Criança magra é desnutrida, doente ou tem vermes! Quantas crianças tomaram tônicos e elixires a base de álcool ou óleo de fígado de bacalhau para abrir o apetite? Que tortura!! Crianças que vivenciaram a cultura daquela época, hoje em dia adultos, podem estar brigando com a balança.

 Existem inúmeras implicações emocionais e psicológicas na existência da obesidade. Muitos pacientes relatam várias tentativas frustradas para emagrecer. Às vezes conseguem manter o peso por um tempo, mas, logo engordam além do peso anterior. Com certeza existem crenças por trás da fome incontida. E questões mentais negativas podem atrapalhar qualquer dieta.

Enquanto está saboreando uma lata de leite condensado, a pessoa acha uma delícia, sente muito prazer, mas, no momento seguinte, acaba se sentindo culpada. Aliás, o sentimento de culpa, a sensação de impotência pelo descontrole, o fracasso, a frustração, sempre acontecem após a ingestão excessiva de alimentos. Como num círculo vicioso: sentir fomeàcomer em exageroàsentir culpaà fazer regimeà sentir fome...e começa tudo de novo. As restrições de alimentos e jejuns, se mal administrados duram pouco tempo, podendo acarretar momentos de compulsão alimentar.

Por que comer em exagero? Será que está a serviço de armazenar forças para enfrentar a difícil realidade? Será que representa compensar uma falta ou uma carência? Vou citar algumas hipóteses de problemas psicológicos e emocionais que podem levar a obesidade: Um ambiente familiar com pouco ou nenhum apoio emocional, onde as angústias são ignoradas, geram lacunas que são preenchidas com comidas, doces e guloseimas para compensar a falta de afeto. Traumas ocorridos na infância, violência sexual, física e/ou psicológica, podem levar a obesidade, sobretudo na fase adulta. Um quadro de depressão, de ansiedade, dificuldades de relacionamento, dificuldades sexuais (no sentido da busca do prazer), distúrbios alimentares (relacionados a compulsão), dismorfia corporal (preocupação obsessiva com a autoimagem). A balança acaba se transformando numa tortura e em efeitos psicológicos negativos. Infelizmente, a pressão midiática ainda causa certa influência na busca de um corpo ideal, fazendo com que muitas pessoas se arrisquem em regimes com tratamentos medicamentosos ou cirurgias plásticas e estéticas muito radicais, cujos resultados nem sempre saem a contento ou podem ser irreversíveis. Até mesmo casos em que o paciente voltou a engordar após a redução do estômago.

Acredito muito na multidisciplinaridade, ou seja, profissionais de diferentes áreas, cada um na sua competência escutando, esclarecendo e orientando os pacientes, cuja meta maior é combater a obesidade e alcançar resultados para eliminar peso, melhorar a saúde e o estilo de vida. Endocrinologia, Nutrição, Fisiatria, Educação Física, dentre outras especialidades, são muito importantes. Entretanto, o Tratamento Psicológico é fundamental para detectar os pensamentos e crenças disfuncionais que levam aos maus hábitos alimentares e ao sofrimento emocional e psíquico. Além disso, promover a conscientização e o desenvolvimento de estratégias para manter a boa saúde mental e a qualidade de vida. 

segunda-feira, 14 de junho de 2021

      Depressão com Crises de Ansiedade consequente a Pandemia

O avanço da pandemia causada pela Covid-19 vem em ondas, acarretando o aumento do número de internações e de mortes, além de medidas político-econômicas e de saúde muito imprecisas. As pessoas estão cada vez mais confusas, inseguras e suscetíveis aos acontecimentos. Estão passando por problemas financeiros, desempregos, até mesmo, falências. São muitas coisas para aceitar e se adaptar no dia a dia. Surgem, então, sintomas denunciando perturbações e desequilíbrios da mente e do corpo em relação a um mundo ameaçador.
         Estão sendo comuns as queixas de angústia, tristeza e desmotivação, assim como, de insônia ou de sonolência exagerada, reclamações sobre ganho de peso e baixa autoestima. Insatisfeitas consigo, com os outros e sem perspectivas de futuro, as pessoas estão mais irritadas e agressivas. Aquelas que perderam parentes e amigos para a Covid-19 estão lidando com luto difícil de elaborar, alimentado diariamente pelas estatísticas de mortes.
Todos estes sintomas estão denunciando um tipo de Depressão com Crises de Ansiedade que tem sido frequente na clínica psicológica. É importante salientar que, as crises de ansiedade, se não tratadas, podem levar a um quadro de depressão mais grave. Embora em menor escala, o contrário também é possível, ou seja, pessoas com depressão podem passar a ter crises de ansiedade.

          Depressão Ansiosa, Ansiedade Depressiva ou Depressão Covid-19?

        Diante de tantas consequências causadas pela pandemia, a terminologia correta para Depressão com Crises de Ansiedade passa a ser mero detalhe face a urgência de medidas para evitar que este tipo de transtorno se torne tão corriqueiro quanto contrair a Covid-19. Portanto, a necessidade de tratamento psicológico passou a ter prioridade por proporcionar ao paciente, um espaço de acolhimento e de escuta terapêutica para organizar sentimentos e emoções, para reprogramar caminhos e desenvolver recursos de enfrentamento e resiliência. Mas, se os sintomas estiverem insuportáveis, a avaliação de um médico psiquiatra se torna imprescindível, pois, há casos em que as medicações são bem vindas e podem trazer grande alívio.
                                        Algumas sugestões saudáveis 

      É importante atualizar-se sobre medidas de saúde e segurança, sobre a eficácia das vacinas, dentre outros assuntos que envolvam qualidade de vida. Porém, é preciso evitar notícias deprimentes e informações distorcidas sem cunho científico, pois, o hábito pode provocar revolta e dar margem a exacerbação da angústia, do medo e da tristeza.
       É aconselhável procurar atividades que proporcionem bem estar e tranquilidade, usar a criatividade, ler bons livros, ouvir boas músicas, cantar, dançar, assistir séries, fazer arte e praticar atividades físicas. E ao sair de casa, seja responsável por seus atos e pense em si e no bem estar comum, não esqueça de usar máscaras e levar o álcool em gel.
 

domingo, 9 de maio de 2021

MÃE PADECE, MAS, NÃO ESMORECE !

Mãe que é mãe é capaz de amar suas crias incondicionalmente, mesmo com todos os percalços que a gestação, o parto, a amamentação e as fases de desenvolvimento acarretam. Eu sei, não é via de regra! Nem toda mulher consegue exercer a maternidade. Me refiro a grande maioria das mulheres que, ao engravidar e depois com o filho nos braços, se sente realizada no papel de mãe. Imaginem quantas influencias arquetípicas emergem do inconsciente quando uma mulher se torna mãe. Sua vida muda totalmente! Daquele momento para frente, ela assume a responsabilidade de preparar este indivíduo para o mundo. Entre erros e acertos, essa mãe vai significando seus sentimentos tornando o exercício do papel de mãe mais interessante. Segundo Donald W. Winnicott (1949), a mãe suficientemente boa é aquela que está preparada em sua essência e, a sua devoção ao bebê proporcionará êxito na criação dele.

Vou partilhar um pouco da minha experiência como mãe. Eu desejei ser mãe! Tenho 3 filhos. As primeiras fases de desenvolvimento foram inesquecíveis porque brinquei muito com eles. Aliás, do meu ponto de vista, o maior segredo do papel de mãe, é manter viva a criança que você foi um dia. Fomos a praias, parques, zoológicos, cinemas, museus e circos, andamos de bicicleta, jogamos bola, peteca, subimos em árvores, lemos livros com histórias inesquecíveis. Quando estas opções se tornavam escassas, nós inventávamos as brincadeiras. Foi uma grande aventura! Confesso que um dos momentos difíceis enfrentados por mim enquanto mãe, foi arbitrar para promover justiça mantendo a imparcialidade quando, por exemplo, os três resolviam entrar numa teima ao disputar o mesmo brinquedo ou o controle remoto da TV ou quem era o dono-mor do Chiquinho (o cachorro). Recordo momentos tensos que acabavam sendo cômicos. Quando um armário de parede despencou porque os três se apoiavam nele enquanto lutavam imitando desenhos animados. Assustados, um acusou o outro e falavam os três ao mesmo tempo. No final, concluímos que o armário estava “mal pregado na parede”. Sinto muitas saudades!

Há anos, eles moram fora do país porque filhos são como passarinhos. Quando suas asas estão com boa envergadura, eles escolhem um rumo e vão explorar o mundo. Alguns filhos não se satisfazem com bairros ou cidades mais próximos. Então, corajosamente, decidem explorar outros continentes. Meus filhos amadureceram e nasceram para o mundo. Sim, são novos partos! De alguma forma, eu estava preparada para viver a síndrome do ninho vazio. Eu sabia que ia doer. Como de fato doeu, porém, ao mesmo tempo, senti uma grande satisfação por vê-los prontos para voar. Afinal, eu os ensinei!

É natural e salutar que este dia chegue. Toda mãe deve estar preparada para esta fase, pois, surgem novas oportunidades de reencontrar a mulher por detrás da mãe, de reavaliar seus papéis como profissional, como esposa, como filha, ter um olhar para sua saúde e, até mesmo, realizar desejos e projetos em standby.

Em fevereiro deste ano, minha filha se tornou mãe. Meu neto é lindo e super saudável. Um bebê feliz! Eu me tornei avó. Ser avó também é ser mãe...com açúcar! Entretanto, por conta da pandemia, não pude vivenciar este momento tão esperado. Refiro-me a estar por perto para ajudar minha filha e meu genro no que fosse necessário. Nem sei se, realmente, haveria necessidade! Na verdade, eu desejava reviver a fase da maternidade que para mim foi uma fase muito bacana, ainda mais por se tratar da gravidez da minha única filha e do nascimento do meu neto primogênito. Meu neto nasceu de parto normal e ainda não pude pegá-lo no colo, trocar uma fralda, empurrar o carrinho para levá-lo ao parque e declarar a quem possa interessar: Este é o meu neto primogênito! Ele é tão bonito, não é? Até ensaiei umas frases em mais que um idioma: He´s my firstborn grandson! He´s so handsome, Isn´t he? Er ist mein girstgeborener Enkel! Er ist so hübsch, nicht wahr? Por conta do fuso horário, tenho que aguardar o dia e o momento que receberei uma chamada de vídeo para conseguir brincar com ele um pouco. É o que tenho para o momento!

Ser mãe é padecer no paraíso! Eu posso afirmar que ser avó, em tempos de pandemia, também! Afinal, ainda segundo Winnicott, a mãe suficientemente boa, com o tempo, vai se tornando desnecessária. Hoje em dia sou uma mãe desnecessária para meus filhos! Entretanto, a vida é como um “estilingue humano”, um dia estaremos todos perto e novas experiencias acontecerão.

Após anos morando sozinha, há dois anos estou morando com a minha mãe. Sim, eu cuido da minha mãe e da minha tia materna também. Estou tendo este privilégio! Vejam só: A minha mãe cuidou de mim e me ajudou a cuidar dos meus filhos. Minha tia ajudou a minha mãe a cuidar de mim e dos meus irmãos e, sempre que precisei, ela também cuidou dos meus filhos. Hoje em dia eu cuido delas! Novamente, surgem grandes oportunidades de rever meus papeis, avaliar minha caminhada, repensar minha vida profissional, exercitar a minha paciência e complacência e nunca deixar de me alegrar com a minha bagagem. Afinal, “se chorei ou se sorri, o importante são que emoções eu vivi!” (Emoções – Roberto Carlos)

Comentei nesse texto algumas das minhas experiências como mãe.  Acredito que muitas mulheres viveram ou estão vivendo situações semelhantes e, talvez se identifiquem. Então, o dedico à todas as mães, avós, tias, irmãs, cunhadas, sogras, primas, que de alguma forma e, às vezes, sem perceber participaram ou ainda participam dessa rede de cuidados na criação de “nossos” filhos. Existe aquele provérbio africano que diz o seguinte: “É preciso uma aldeia inteira para criar uma criança”. E quem não concorda?


Sugestões: Música- "Emoções" Roberto Carlos

Nota: As citações no texto foram capturadas em consultas de publicações da internet.

terça-feira, 27 de abril de 2021

Alguém sabe me dizer se pular gatos dá azar?

Espero que não, porque pulo dois gatos todos os dias, mais que uma vez ao dia. Eles se esparramam nos degraus da escada circular que leva ao consultório e ficam lá até eu encerrar o expediente. Na hora do almoço, esperam que eu os pule para depois me seguirem para dentro da casa. Quando retorno para atender os pacientes da tarde, eles estão lá ajeitados nos degraus para serem pulados novamente. Não movem nem o rabo do lugar, me obrigando de vez em quando, a subir ou descer dois degraus de uma só vez. E assim seguem meus dias: pular gatos ao subir, pular gatos ao descer! 

Pensei na sutil comunicação dos animais com os humanos. Este comportamento deles terá algum significado? Uma coisa é certa, estou mais reflexiva e observadora, o que é bom, pois, esqueço por um tempo as preocupações com pandemia, crise financeira, futuro, etc.

Por vezes, ao abrir a porta do consultório, me surpreendo com eles deitados no capacho. Para sair, tenho que pulá-los, é claro! Descobri que gatos ouvem atrás das portas! Se alcançassem o buraco da fechadura, com certeza espiariam também. Nem adianta chamar a atenção deles. Se fossem humanos, recomendaria análise urgentemente, não antes de constrange-los para não repetirem a façanha: “Que coisa feia, ouvindo atrás da porta?!?”. Mas, gatos não estão nem aí, não sentem vergonha!

          Existem muitas histórias sobre a existência dos gatos. Reza a lenda que os gatos surgiram do espirro de um leão. Eles foram cultuados como deuses e depois, considerados demônios. Imagino quantos bichanos foram martirizados, principalmente gatos pretos. É lamentável que, em pleno século XXI, ainda existam pessoas capazes de maltratá-los. Machado de Assis comentou em seu romance Quincas Borba (1891) que gatos parecem animais metafísicos: “Obedientes à natureza, gatos ficam contentes com que a vida lhes dá”. Machado de Assis deve ter sido gateiro! Aliás, gatos sempre estiveram ao lado de grandes escritores e nomes famosos. Lewis Carroll e seu gato sorridente, personagem inesquecível do conto “Alice no País das Maravilhas”. O famoso “Gato de Botas” do escritor francês Charles Perrault (1697). O Gato personagem intrigante do filme stop motion “Coraline e o Mundo Secreto” (2009). Os gatos inspiraram a Dra. Nise da Silveira em “Gatos, a Emoção de Lidar” (1998). Ela cuidava de vários gatos e considerava-os co-terapeutas no tratamento dos pacientes psiquiátricos. Não posso deixar de comentar sobre o musical “Cats” de Andrew Lloyd Webber, baseado no livro de T. S. Elliot e sobre o conto infantil de Jorge Amado “O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá”. Gatos foram fontes de inspiração até para grandes pintores como Renoir (“L’enfant au chat” - 1887), Gauguin (Eiaha Ohipa - 1896) e Picasso (Gato e Pássaro - 1939). Acredito que gatos tenham inspirado estes intelectuais porque são animais silenciosos, discretos, inteligentes, astutos e muito independentes. Dizem que gatos são traiçoeiros, imprevisíveis e atacam sem motivo. Não concordo! Gatos parecem fazer a leitura da alma dos humanos. Pode ter certeza, se atacam é porque percebem o obsessor, as más intenções ou a contaminação energética no ambiente. Talvez por isso provoquem aversão e medo em certas pessoas. Na verdade, o medo de gatos denuncia suas limitações, medo do desconhecido, medo do inatingível, do que parece impossível de enfrentar em si mesmas.

Lidar com gatos requer sensibilidade e disciplina. Gatos são fortes, imponentes e bonitos. Na convivência com esses felinos, percebo-os super atentos, engraçados, sinalizam quando a saúde requer atenção. Dormir com eles é muito gostoso! Eles são quentinhos e a frequência do ronronar é um excelente indutor natural do sono. Dizem que gatos têm 7 vidas. Eles têm uma única vida bem vivida que se prolonga por serem perspicazes e por não se intimidarem com dificuldades e obstáculos. Desafiam até a lei da gravidade, sempre caem em pé. Quando converso com eles, normalmente interagem comigo miando ou ronronando. Também percebi algo importante, aprendo muito com eles!

Convivo com o Freud e o Anakin, ambos gatos resgatados. O Freud é um senhor siamês de 14 anos, possui o estrabismo congênito, tem os olhos voltados para si. Embora apresente dificuldade para calcular profundidade e altura, Freud é bastante cauteloso. Ao contrário da maioria dos gatos, raramente evita estranhos, é muito sociável e adora crianças. O Anakin tem 12 anos, gato elegante e ágil, um excelente caçador. Sua pelagem acinzentada com listras, suas patas grandes e olhos esverdeados lembram um tigre. Entre eles existe uma hierarquia desenvolvida por eles próprios, onde o mais velho tem a prioridade. Gostam de brincar, normalmente é Anakin que convida. Ambos são super saudáveis e muito bacanas! Confesso que, pular gatos tem sido divertido! Tem me feito muito bem neste período de distanciamento social.

    Lembrei-me de uma antiga tradição africana e cheia de simbolismos. Ao final da cerimônia de casamento, os noivos pulam uma vassoura que representa varrer o passado para dar início a uma nova vida. Eu pulo gatos!! Qual a tradicionalidade disso? O termo “tradição” tem a ver com “transferência”. Tenho alguns palpites sobre pular gatos:  De certo, eles estão me induzindo a pensar sobre convivência, vínculos, sentimentos e emoções. Pode ser isso! Ou talvez queiram me ensinar que, na vida encontramos obstáculos, às vezes difíceis, porém, com esforço e determinação são todos transponíveis. Ou ainda quem sabe, me incentivar a manter ativa minha criança interior, pois, sem que eu perceba, me levam a brincar com eles. Ou queiram apenas me inspirar para escrever sobre eles. Seja qual for a resposta, continuarei a pular gatos, todos os dias.

       Espero que pular gatos traga sorte e melhor entendimento da realidade e acrescente dias aos meus dias de vida e nas deles também. 
Sou gateira com orgulho! Recomendo aos gateiros como eu: pulem seus gatos, conversem com eles, tirem um tempo para observá-los e brincar com eles. Acreditem-me, vocês vão se divertir muito! 











Sugestões

Música: "Memory" (do musical "Cats")

Livro: "Gatos, a Emoção de Lidar" Nise da Silveira.

Nota: Todas as informações sobre datas citadas no texto foram pesquisadas em publicações da internet. 

domingo, 19 de abril de 2020

Famílias confinadas: Como estão se relacionando?


O Relacionamento Familiar é um assunto muito importante e ao mesmo tempo delicado. A família é uma consequência da vida. Todo mundo pertence a uma. A maioria das famílias estão tendo a grande oportunidade de estarem juntas no período de isolamento social. Marido com a esposa, pais com os filhos ou somente a mãe com os filhos, avós com filhos e netos, várias constituições nucleares. Isso pode representar uma situação muito saudável e prazerosa.... ou não!  Sabemos que o núcleo familiar não é aquele modelo da foto, todos sorrindo abraçados, tudo certinho! O núcleo familiar é dinâmico e mutável. Na convivência familiar existem variações de comportamentos, de falas, de atuações, ocorrem muitas projeções e, por vezes, um ataca o outro, um transforma o outro em “bode expiatório”. Mulher que encrenca com marido; homem que descarrega sua raiva na mulher ou nos filhos; pais que discutem na presença dos filhos, enfim, estas tensões podem acontecer no contexto familiar. Imaginem a convivência familiar numa casa sem muito espaço, sem um mínimo de privacidade, gera a todos um grande estresse e irritabilidade, tendo como consequência a sensação de aprisionamento. É claro que as pessoas ficarão mais ansiosas e angustiadas. Existem aqueles casais que, mesmo antes do isolamento social, apresentavam situações conjugais mal resolvidas, conflitos, falta de sintonia e descontavam suas revoltas um no outro. Com o advento do Corona Vírus, estes problemas podem ter aumentado e a convivência ter se tornado insuportável!
A pergunta é: O que fazer com esta situação? Sabemos que o confinamento não tem um prazo definitivo para terminar. Por enquanto, devemos ficar isolados.
Então, as sugestões são: Enquanto mantivermos o confinamento, vamos procurar evitar as reclamações? Estamos todos na mesma situação, sem previsibilidade, temerosos com o futuro. Reclamações constantes vão corroendo, vão entristecendo, vão causando a sensação de incapacidade nos familiares, vão irritando a todos e não trazem soluções. Vamos procurar dialogar mais e criticar menos? Aliás, críticas não trazem bons resultados em condições de confinamento, ao contrário, podem levar a discussões e brigas.
O ato de DISCUTIR é quando a pessoa tenta impor sobre a outra seus pontos de vista, suas vontades, suas regras e exigências, situações que levam facilmente à graves desentendimentos. Ficam mais graves ainda, quando a convivência no isolamento envolve pessoas que apresentam um real comprometimento mental. Por exemplo, homens e mulheres que gritam. Homens que gritam e acreditam que a valentia garanta a eles poder, autoridade, virilidade (...só que não!!); mulheres que por qualquer razão gritam histericamente, com os filhos, com o marido e colocam a culpa neles por agirem assim ou culpam a TPM. Pode até envolver algum desequilíbrio fisiológico, mas, somente ele, não justifica os gritos. Palavrões, xingamentos, ofensas, ameaças, opressões, sarcasmos, toda forma de desrespeito ao outro, sobretudo em período de confinamento, pode gerar rebelião! Todos acabarão sofrendo, e pior, todos acabarão tristes e emocionalmente machucados.
Por outro lado, o ato de DIALOGAR é um exercício muito legal e salutar. Ao dialogar, as pessoas expressam seus sentimentos, deixam fluir ideias para melhorar o relacionamento, surgem possibilidades de compreensão mútua e de entendimento. Portanto, olhe para os olhos do outro, escute tudo o que a pessoa tem para falar, pense se você pode acrescentar alguma ideia. Se não pode, então, silencie! Se os ânimos começarem a esquentar, peça licença, vai ao banheiro, lave o rosto, as mãos, use álcool em gel, respire fundo. Existem problemas conjugais ou familiares que somente a psicoterapia ou um advogado poderão ajudar. É aconselhável deixar passar o período de confinamento para tomar providências cabíveis. Por enquanto, o correto é manter o respeito, tratar um ao outro com delicadeza e paciência e, acima de tudo, com amor.

sábado, 18 de abril de 2020

Isolamento Social: Como administrar a nova realidade?


Iniciamos o mês de abril ainda mantendo o isolamento social. Nos surpreendemos com a onda de contaminação que nos tirou da rotina, daquela previsibilidade diária que nos garantia uma certa liberdade de escolha. Ainda estamos nos adaptando às novas regras e condições para evitar a contaminação por Corona Vírus. São tantos detalhes e cuidados que dá a sensação de impotência. Pode demorar, mas, nós vamos conseguir!  
A situação de isolamento está nos desafiando e nos levando a pensar mais em nós mesmos. Trata-se de olhar para dentro de si, para o próprio eu. Como agíamos antes da pandemia? Éramos tão cuidadosos com a higiene corporal como estamos sendo agora? E com a higiene mental? E com os nossos familiares, cuidávamos deles tanto assim?
Antes da pandemia, nós estávamos envolvidos numa rotina de compromissos que, nem sempre sobrava tempo para sentarmos para conversar com nossos pais, maridos, filhos. Sabe aquele momento de preparar a mesa para uma refeição e todos se sentarem, se olharem e partilharem seus sentimentos? Só de imaginar dá uma sensação super agradável!
E a nossa casa? Estávamos cuidando dela com carinho? E aquela gaveta ou aquele armário, cuja bagunça deixávamos sempre para depois? Na visão psicanalítica, a casa é a nossa identidade, tem todo um aspecto afetivo de troca, de proteção e de segurança. Chegou a hora de pôr a nossa casa em ordem!
Apesar dos riscos da contaminação, de não sabermos quando as coisas voltarão ao “normal”, nós ainda podemos manter uma rotina, até para não ficarmos entediados, ansiosos ou mal humorados. Quem sabe agora consigamos “manter uma rotina produtiva e saudável”. Como podemos fazer isso? Precisamos encontrar saídas, enxergar possibilidades inteligentes, para lidar com a nova realidade. Pensamentos ruins, negativos ou limitantes, não trarão soluções. Lembrem-se, pensamentos ruins são raízes da Depressão. Vamos procurar pensar com clareza e objetividade. Pensar no que é útil, pensar no que é bom! Então, mãos à obra!

quarta-feira, 2 de novembro de 2016



Comentários sobre o livro de Jean-Pierre Lebrun:


CLÍNICA DA INSTITUIÇÃO


O que a Psicanálise contribui para a vida coletiva




Jean-Pierre Lebrun inicia seu livro fazendo um questionamento sobre a extensão da psicanálise e sua eficácia aplicada na vida institucional. Em como a psicanálise pode contribuir para a vida coletiva, seja para pequenos grupos ou para toda uma sociedade. Ele observa que o mundo passa por um momento histórico de grandes mudanças, em que o laço social encontra-se variável e problemático. A subjetividade individual e a vida coletiva perdem a sua constituição patrocentrada, onde opera a recusa do real. Diante deste cenário, governar se tornou somente o que é possível. Aquele que ocupa um lugar de exceção, não consegue conduzir à unidade por não mais ter lugar privilegiado, devido a clivagem entre os discursos das vidas institucional e política versus a tão difícil realidade cotidiana. 






Lebrun versa apoiando-se nas teorias de Freud e Lacan, na tentativa de reinventar a vida coletiva, não mais no modelo de autoridade tradicional, mas, através do coletivo onde cada sujeito assume a responsabilidade dos seus atos. Com este trabalho, Lebrun demonstra como o psicanalista pode dar conta do percurso da vida dos grupos e da clínica, para enfrentar os novos perfis institucionais. 


Pelos capítulos do livro, Lebrun vai construindo um mosaico à partir de fragmentos das teorias de Freud e Lacan, para demonstrar como está organizada a vida coletiva, num momento histórico em que o laço social, sobretudo na dimensão do político, passa por uma profunda transformação. A sociedade perde a verticalidade incompleta e consistente, para uma estrutura horizontalizada, completa e inconsistente, que rompeu com a totalização do Um, com o transcendental, cuja autoridade era incontestável. Constata-se hoje uma inversão, onde opera uma recusa a qualquer sobrepujança. O sujeito não aceita mais ser governado porque busca sua própria via para garantir sua singularidade, e quem ocupa o lugar de exceção, tem dificuldade para promover a unidade. Segundo o esquema da sexuação de Lacan, Lebrun demonstra que o funcionamento do lado dos homens coexiste ao do lado das mulheres, este fato é irredutível. Evitar a organização patriarcal, não significa dar prevalência à mãe, pois, representaria a perda do discernimento em relação à cultura, como um resto não domesticado tendo como base a hostilidade. Nenhum sujeito pode fazer sua própria via sem instituir, afinal, a língua enoda o sujeito singular e o coletivo, o que possibilita o ato. Embora, o lado direito denote uma autoridade sem autor, um conjunto aberto, uma pluralidade, Lebrun comprovou que uma instituição sob o totalitarismo do Outro pode ser eficaz, por oferecer ao sujeito a possibilidade de um ato ético, pois, no seu estatuto de falasser deverá se orientar pelos seus valores, assumir a responsabilidade pelos seus atos e ter respeito às singularidades dos outros.


Diante da atual realidade, do mundo das satisfações imediatas, Lebrun percebe a necessidade de reinventar a vida coletiva, apostando na conscientização e educação cidadã, cujas normas e leis devem ser absorvidas por todos, de maneira que o real possa dar sentido ao simbólico. A aptidão à linguagem que obriga o sujeito à uma perda, possibilita as diferenças de lugares e fazer ato ao reconhecer as leis e normas. 


Ao psicanalista que trabalha na instituição, é preciso estar atento à sua posição para “ouvir os fenômenos institucionais com ouvido analítico” (pág.79) e conseguir analisar as ações inconscientes e identificar o corte entre os lugares. Todos os fatos institucionais, assim como, silêncios, lapsos e pontuações devem ser considerados como discursos. Lebrun destaca como a única arma de trabalho do psicanalista, a transferência que possibilitará abordar o que constitui o enodamento entre os sujeitos.



Referência Bibliográfica


LEBRUN, JEAN-PIERRE "Clínica da instituição:o que a psicanálise contribui para a vida coletiva" Porto Alegre ; CMC Editora

domingo, 23 de dezembro de 2012

A privação da facilitação ambiental e suas consequências na formação do self

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Donald Wood Winnicott (1896-1971)

As ideias de Winnicott trouxeram uma nova proposta terapêutica à psicanálise freudiana, sobretudo no que diz respeito à origem dos distúrbios psíquicos. Winnicott os compreende como decorrentes da falha ambiental tendo suas raízes anteriores ao complexo de Édipo. Desta forma, a teoria da sexualidade representa para Winnicott, apenas uma parte do desenvolvimento do ser humano.

Suas observações derivaram de seu trabalho com crianças e bebês, quando pôde notar que o desenvolvimento do ser humano é um processo contínuo envolvendo o corpo, a personalidade e a capacidade de relações. Winnicott afirma que “... nenhuma fase pode ser suprimida ou impedida sem efeitos perniciosos.”(pág.95) A seu ver, saúde significa maturidade. O ser humano terá saúde se não houver empecilhos em seu desenvolvimento emocional.

Ainda no ventre, o bebê desenvolve as primeiras percepções de mundo. Ao nascer, ele traz consigo esses referenciais e responderá ao ambiente de forma própria e distinta. O bebê nasce não integrado, ou seja, não há vínculo entre o corpo (soma) e a mente (psique), não há noção temporal nem espacial. O ambiente age como facilitador no processo de maturação que, a princípio, é representado pela mãe que, por sua vez, precisa se identificar com o bebê para conhecê-lo. Isto se dá através da “preocupação materna primária”, quando a mãe desenvolve a capacidade de se adaptar por completo às necessidades do bebê.

Nos primeiros seis meses de vida, o bebê encontra-se na fase de “dependência absoluta”. Isto significa que todos os cuidados dedicados a ele constituem segurança, saúde e prazer. A mãe apresenta o mundo ao bebê e permite que ele tenha a ilusão de criar as coisas conforme suas necessidades. Aos poucos, a mãe vai conseguindo recuar desta posição para outra, chamada por Winnicott de “dependência relativa”, cuja tarefa será conduzir, gradativamente, o bebê no processo de “desilusionamento”, à medida que ele demonstre aceitação da realidade externa.

Esta relação íntima saudável entre mãe e filho, funda a base da personalidade do bebê, de seu desenvolvimento emocional e fortalecimento psíquico. O vínculo será suficientemente bom se houver amor.

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    A Maternidade - Pablo Picasso (1905)

Para Winnicott, o bebê terá um bom princípio de vida se a mãe o reconhecer como uma pessoa e oferecer a ele o “holding” e o “handling” adequados. São termos usados por Winnicott para explicar que na formação do self, a maneira como a mãe segura o bebê em seu colo, o fato dele se sentir desejado e do contato físico com ela, seu ego (na visão de Winnicott tem a ver com instância psíquica) seja estabelecido. Para esta comunicabilidade entre mãe e bebê, Winnicott denominou de “experiência de mutualidade”, que também diz respeito às primeiras manifestações de amor entre ambos, sobretudo na alimentação (amor-boca), quando também se estabelece a comunicação a partir do olhar: a mãe observa o bebê e este se vê em seus olhos (imagem especular). O rosto da mãe é como um espelho capaz de libidinizar, quer dizer, dar sentido ao seu instinto, ao objeto. Trata-se do início de uma intersubjetividade entre ambos, o encontro de dois inconscientes (mãe-bebê). Somente com um bom holding, o bebê será capaz de diferenciar o seu “eu” e o que existe fora dele, “não eu” e alcançar o estágio de integração, processo este anterior à personalização.

“O prazer da mãe tem de estar presente nesses atos ou então tudo o que fizer é monótono, inútil e mecânico”. (p.28)

Segundo Winnicott, a mãe cuida para garantir ao bebê previsibilidade, tranquilidade e confiabilidade que auxiliarão na sua integração e personalização, ou seja, para a constituição do self – da experiência do bebê poder se perceber como um alguém ao longo do tempo. Este processo é mesclado com vivências de “não-integração”, ao introjetar o ego auxiliar da mãe, o bebê desenvolve a capacidade de estar só, considerado por Winnicott como um dos mais importantes sinais de saúde psíquica e de desenvolvimento emocional.

Quando não há apresentação de objeto, holding e handling adequados, o ego do bebê fica perturbado, não consegue se estabelecer ou se desenvolver conforme o processo de maturação. O bebê tem a sensação de despedaçamento, de enlouquecimento, de queda, de má percepção da realidade externa, dentre outras ansiedades classificadas como psicóticas (pag. 27). Winnicott descreve estas sensações como “agonias impensáveis” e aponta as falhas ambientais e as perturbações, como desencadeadoras de distúrbios psicossomáticos, sejam nas fases iniciais ou mais adiantadas do desenvolvimento, cujas defesas podem apresentar organizações do tipo esquizoides ou um falso self. Winnicott (1952) descreve o falso-self como sendo uma versão patológica do que seria uma personalidade normal, cuja origem está relacionada com uma adaptação não suficientemente boa no relacionamento do bebê com os objetos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

· WINNICOTT, D. W. “O brincar e a realidade” (J. O. Abreu e V. Nobre, trad) Ed. Imago, Rio de Janeiro, 1975.

· WINNICOTT, D. W. “A criança e o seu mundo” (1948), Zahar Editores S.A.- 6ª edição – Rio de Janeiro: 1982.

· WINNICOTT, D. W. “O ambiente e os processos de maturação” Porto Alegre: Artes Médicas. 1990.

sábado, 22 de setembro de 2012

O PILÃO E O CAFÉ

Bateu saudade dos meus avós! Tive o privilégio de conhecê-los e passar muitos anos ao lado deles. Meus avós moravam em uma casa cercada de flores e árvores frutíferas: além das roseiras, magnólias e sempre-vivas, haviam mexericas, goiabas, jabuticabas, cidras, limões-rosa (muito bons para combater gripes) e uns pezinhos de café, de onde meus avós colhiam os grãos, secavam e pilavam. Exatamente isso, pilavam! Naquela época, ter um pilão era como ter um multiprocessador nos dias de hoje. Todo mundo tinha um pilão! Grande, médio ou pequeno, não era propriamente um sonho de consumo e sim uma necessidade. O pilão dos meus avós era um modelo standard e ficava ao lado da porta da cozinha. Além desse, minha avó também usava outro pilão bem pequeno, tipo almofariz de metal, para pilar alho. Colher, torrar, socar os grãos no pilão somados às canções italianas e àquele cheirinho bom, ficaram registrados em minha memória. Meus avós pilavam os grãos de café! A tarefa era dividida entre os dois. Quando um cansava, passava a vez ao outro. Interessante é que eles não faziam aquilo com desprazer, ao contrário, lembro-me dos risos, da cumplicidade, uma verdadeira parceria no ato de pilar. Aquele bater cadenciado e firme: tum, tum, tum, fazia o meu coração bater no mesmo ritmo.

                                                     Mulher do Pilão - Cândido Portinari

Só entende de pilão quem tem ligação com a natureza, com a terra. Meus avós trabalhavam a terra e respeitavam a natureza. Eles olhavam para o céu e sabiam se ia chover, conheciam o canto dos pássaros e se o ano daria uma boa colheita. Candido Portinari pintou a “Mulher do Pilão”, cujos pés e mãos são grandes como todos os outros personagens de suas telas, provavelmente para demonstrar o seu reconhecimento e respeito para com aqueles que trabalham a terra.

                                                              Café - Cândido Portinari

Quem trabalha a terra, respeita a natureza, portanto, são pessoas sensíveis. Meus avós eram sensíveis e estavam sempre de bom humor, talvez porque, o ato de pilar os grãos de café possibilitava a elaboração das fantasias e de impulsos agressivos: eles socavam, trituravam, esmagavam, estilhaçavam os grãos. Dramaticamente terapêutico! A recompensa era a satisfação do aroma e o prazer de saborear um delicioso café. Que saudades dos meus avós!

Canções do Folclore Italiano: Matinatta / Va’ pensiero

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Dia do Psicólogo - 27 de agosto



A psicologia no Brasil foi regulamentada em 27 de agosto de 1962. Neste meio século, a nossa atuação ganhou espaço em muitas áreas além da clínica. Hoje, a sociedade como um todo reconhece a importância do psicólogo e sua participação nas resoluções, debates, propostas e contribuições. Tenho orgulho de ser psicóloga! Parabéns à todos os colegas!

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

CORALINE E O MUNDO SECRETO

O filme foi dirigido por Henry Selick: “Coraline e o Mundo Secreto”, uma adaptação do livro “Coraline”, do escritor Neil Gaiman. Este texto relacionará a simbologia encontrada em algumas cenas, com os conceitos teóricos de Melanie Klein.


O filme conta a história de Coraline Jones, uma menina aos onze anos de idade, filha única, cujos pais escritores encontram-se muito ocupados com o trabalho e não lhe dão a devida atenção. A história começa com a família chegando de mudança em um antigo casarão chamado “Palácio Cor-de-Rosa”. A senhoria não aceitava famílias com crianças porque, sua irmã desapareceu misteriosamente quando ainda era criança. O lugar é sombrio, chove com frequência, mas, apesar das chuvas, o jardim em frente ao casarão parece sem cuidados e quase sem vida. Chama a atenção o fato de os pais de Coraline se dedicarem a escrever um catálogo sobre jardinagem, mas, parecem indiferentes ao jardim que jaz em frente às janelas. Coraline critica sua mãe por não deixá-la brincar na chuva e na lama: “Você e papai são pagos para escrever sobre plantas e odeiam terra!”, diz ela. Por muitas vezes Coraline tenta atrair a atenção de seus pais absorvidos pelo trabalho. Mas, eles sempre dão um jeito para que ela se afaste, fique longe deles, se entretenha com qualquer outra coisa, mas, não os atrapalhe. Coraline tenta dialogar com a mãe, mas, ela não corresponde. Há um momento em que Coraline comenta que quase caiu em um poço e que poderia ter morrido. A mãe responde displicente: “Que legal!”. Também não deu importância para a alergia na mão da filha causada pela varinha de rabdomante.

É nítida a inversão de papéis das figuras parentais: a mãe é dominadora, autoritária e ríspida com a filha. O pai trata a esposa como “a chefe” e mostra-se submisso às suas vontades. Pertence ao pai a tarefa de cozinhar, nunca à mãe. São questões que vão sendo apontadas na fala de Coraline que não consegue ter essa mãe como um objeto total porque esta não corresponde aos seus anseios. Assim como o pai, que em nada corresponde ao pai idealizado. O pai de Coraline, para livrar-se da filha, sugere à ela circular pelo casarão para listar todas as portas, as janelas e tudo o que é azul. A cor azul é considerada uma cor fria e prevalece na maior parte do filme. Dentre seus diversos significados, pode estar associada à monotonia, à depressão, deixando o ambiente formal, porém, sem graça pela ótica da criança. Pode indicar a maneira como Coraline está percebendo a realidade: “Incrivelmente chata!”, como ela mesma o diz. Porém, em muitos momentos, Coraline é contrária à opinião de sua mãe quanto a impressão que tem dos vizinhos: Sr Bobinsk, o misterioso domador de ratos e as duas senhoras April Spink e Mirian Forcible, ex-atrizes de espetáculos, que em determinado momento recitam “Hamlet” para ela, uma apologia ao complexo de Édipo. Além de dar o tom à realidade conforme seus conteúdos internos, Coraline tem o comportamento de oposição à mãe, bastante marcado em várias cenas.


Em uma cena em que a família está fazendo uma refeição, Coraline pergunta à sua boneca: “Acha que estão querendo me envenenar?”, referindo-se à comida preparada por seu pai, sendo obrigada a comê-la. Trata-se de um momento em que a relação de objeto está sendo claramente ruim, sente-se ameaçada, demonstra medo, conteúdo da ansiedade da fantasia de agressão causada pela frustração excessiva. Melanie Klein (1946) fala sobre a projeção, a introjeção e o processo de cisão na organização do aparelho psíquico. A relação com os pais (seus objetos externos) não está em conformidade com suas fantasias inconscientes dos pais idealizados em seu mundo interno. Coraline tem que lidar com a frustração, a falta de liberdade e a raiva provocadas pela insensibilidade e desafeto desses pais, com a separação de partes da sua vida que ficaram para trás com a mudança de casa, como os amigos, a escola e, também, com a fase de desenvolvimento em que se encontra: Coraline está entrando na puberdade, passando por conflitos típicos desta fase. Essa transmutação gera em Coraline muita angústia revelada nas cenas em que diz: “Não tenho mais idade para brincar com bonecas!” e: “Não tenho mais cinco anos de idade!”. Em suas observações, Klein (1932) afirma que “na puberdade, as manifestações de angústia e dos afetos se exprimem com uma intensidade infinitamente maior do que no período de latência e constituem uma espécie de recrudescimento das descargas de angústia”.


A relação de Coraline com os pais, principalmente com a figura frustradora, a mãe, é bem cindida. Desse modo, o ego fica vulnerável, pois, também pode cindir-se, portanto, passa a buscar gratificação, pode ser através da idealização originada dos desejos pulsionais. Coraline sai à procura de um velho poço andonado usando uma varinha de rabdomante, na verdade não indica o lugar do poço, mas, demonstra sua necessidade inconsciente de obter satisfação da curiosidade, de seus desejos. O poço pode simbolizar o misterioso inconsciente que quanto mais fundo se consegue penetrar, mais se conhece seu conteúdo: “... dizem que ele é tão fundo que se cair dentro dele e olhar para cima, verá o céu cheio de estrelas em plena luz do dia!” parafraseado na fala de Whyborn Lovat, cujo apelido Whybie conhece Coraline e passa a fazer parte da história em muitos momentos, porém, é um personagem criado exclusivamente para o filme para Coraline ter com quem conversar. Para saber o nome de Coraline, ele pergunta: “Qual o seu carma?” Coraline responde: “Meu nome não é nenhum carma! É Coraline!”. Na verdade seu nome é um carma no sentido de uma consequência do nascimento, porque naquele lugar ninguém pronuncia seu nome corretamente, fato que a deixa sempre irritada. Porém, logo, não mais corrige as pessoas. Reafirmando Martins (1991- In: Rabinovich e cols.): “O inconsciente pesa sobre o nome de cada um, é suporte da representação psíquica primária e fruto do desejo de um outro e funciona como uma fantasia inconsciente fabricando sentido”.

Whybie presenteia Coraline com uma boneca semelhante a ela, cujos olhos são de botões. A boneca pode representar a Coraline na sua essência (self), sua parte infantil que vai ficando para trás como consequência do amadurecimento. Whybie também apresenta à Coraline, o gato como sendo selvagem e sem dono. Devido ao seu poder de transitar tanto no mundo real quanto no ideal, à sua astúcia e sensatez, ele pode representar parte do ego de Coraline. 



O casarão não parece aconchegante, quase sem mobílias, sobretudo o quarto de Coraline, sem colorido nas paredes, com uma rachadura no teto, poucos brinquedos, totalmente impessoal, nem um pouco parecido com um quarto de menina. Sentindo-se só e sem ter o que fazer, Coraline começa a explorar o lugar e descobre uma porta quando aberta dá em uma parede. Curiosa e com impulsos instintivos aguçados por encontrar vazão, Coraline tem um sonho. Neste sonho, Coraline é conduzida por um rato até a pequena porta. Ao abri-la, se depara com um túnel que a conduz à outro mundo. Vislumbrada com o túnel, que se assemelha a entrada de um útero, Coraline engatinha por ele até a outra porta. Segundo Klein (1848), a porta e a chave são símbolos que representam a entrada e saída do interior do objeto, assim como a chave, o pênis do pai. Penetrar este túnel significa entrar no corpo da mãe, realizando o desejo de controle, de força e de poder sobre ela. Segundo Klein (1948), “as fantasias sádicas concernentes ao interior do corpo da mãe constituem uma relação fundamental da criança com o mundo exterior e a realidade”. O resultado da interação entre a projeção dos impulsos sádicos de Coraline e a introjeção de seus objetos favorecerão sua adaptação e aceitação à realidade. Neste outro mundo, Coraline tem todos os seus desejos satisfeitos. Ela encontra seus pais idealizados, a “outra mãe” (a Bela Dama) e o “outro pai”, ambos com botões no lugar dos olhos. Neste outro mundo tudo é permitido e ideal: a “outra mãe” prepara comidas gostosas, compra roupas coloridas do gosto de Coraline e brinca com ela. O “outro pai” toca piano, canta para ela uma canção em que a chama de “bonequinha” e não de “bruxinha”, como na canção do pai real. Ele usa pantufas e faz um jardim com formato do rosto de Coraline. Este jardim exuberante vai desabrochando ou "excitando” conforme Coraline passa por entre as flores coloridas com formatos fálicos e que fazem cócegas. Em duas cenas de cumplicidade entre Coraline e seu “outro pai”, ficam marcados impulsos edípicos como uma forma de gratificação. Há uma cena em que a “outra mãe” manda a filha e Whybie irem para o quarto. A angústia provocada por múltiplos objetos do mundo real levando-a a ficar com “olhos atentos”, no mundo ideal os olhos são de botões. Não existe espiação e nem tão pouco expiação. Os “outros pais” permitem que ela brinque na chuva com lama. Seu quarto é aconchegante, colorido e com cortinas, os “outros pais” a levam para cama. Tudo parece perfeito. O sonho gerou seu oposto devido a situação conflitual em desejar o modelo dos pais idealizados em seu mundo interno. A “outra mãe” tenta convencê-la a ficar com eles, mas, com a condição de deixá-la costurar botões em seus olhos. É nesse momento que Coraline percebe que este mundo ideal tem armadilhas, pois, se ceder à vontade da bela dama perderá contato com a realidade. A “outra mãe”, que agora se revela uma aranha monstruosa (bruxa), aprisiona os pais reais de Coraline, que por sua vez sente culpa, começa a agir em busca de reparação. Coraline mune-se de armas (recursos) e com a ajuda do gato salva seus pais, tranca a porta e joga a chave no poço para que a bela dama jamais a encontre. Klein (1930) afirma em seus estudos que certa quantidade de ansiedade é necessária para a formação de símbolos e fantasias para que o Ego aprenda a lidar com a ansiedade para uma elaboração adequada. Quando reage contra a “outra mãe”, Coraline consegue equacionar os dois mundos, tanto o real quanto o ideal integrando-os. A culpa diminui, enquanto o ego se fortalece e consegue unir as partes cindidas, faz com que a clivagem entre os objetos persecutórios e os idealizados diminua, o que conduz a concluir que Coraline consegue manter preservada a sua integridade mental.

REFERÊNCIAS

- KLEIN, M. “Psicanálise da Criança” (1948), Tradução: Pola Civelli – 3ª edição – São Paulo:
Mestre Jou. 1981. Cap.5 pág. 119.

- KLEIN, M. “A Importância da Formação de Símbolos no Desenvolvimento do Ego”. In: Amor
Culpa e reparação e Outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago. 1930.

- KLEIN, M. “Uma Contribuição à Psicogênese dos Estados Maníacos Depressivos”. In: Amor,
Culpa e Reparação e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1935.

- KLEIN, M. “O Complexo de Édipo à Luz das Ansiedades Arcaicas”. In: Amor, Culpa e Reparação e
outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1948

- RABINOVICH, E. P., TAVAGLINE, D., COSER, A. C. P. H., ESTEVES, E. N. “Atribuição de
nomes Próprios e seu Papel no Desenvolvimento Segundo Relato dos Nomeados”. Texto extraído da
Revista .Bras.Cresc.Des.Hum. São Paulo, III (2): 119-137, 1993.

- FREUD, S. “A Interpretação dos Sonhos”. In: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud;

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

REPETIÇÃO À ELABORAÇÃO NO SETTING TERAPÊUTICO

Recordar, Repetir e Elaborar (1914) é um dos trabalhos de Freud que traz conceitos de repetição e de elaboração.

Na primeira fase da construção da técnica psicanalítica, o método catártico consistia em focalizar o momento em que o sintoma se formava através da recordação e da reprodução dos processos mentais envolvidos na situação, para descarregá-los na atividade consciente. Com o método da associação livre, o objetivo era descobrir o que o paciente deixava de recordar. Para isso, Freud utilizou como recurso a interpretação, para superar as críticas e censuras do paciente identificando suas resistências. Ao tomar conhecimento de suas resistências, o paciente consegue relacioná-las às situações esquecidas, tal como preencher lacunas na memória nesse processo de conscientização.

Em seus estudos, além dos fenômenos da transferência, da resistência e da repressão, Freud fala sobre a repetição. Na verdade, a repetição está relacionada à transferência e à recordação. A repetição tem suas raízes agregadas à infância, à sexualidade e à repressão. Freud percebe no psiquismo humano a existência de uma energia pulsional e que o organismo recebe estímulos tanto externos quanto internos que representam fontes de prazer e de desprazer e terá acesso à consciência à partir de suas representações. No momento em que não houve possibilidade de representação surge a repetição para uma nova tentativa de elaboração. Como disse Freud: são as lembranças encobridoras que permanecem na superfície da mente e que através da interpretação podem ser interceptadas e extraídas. Na opinião de Freud, em seu textoRecordar, Repetir e Elaborar, o paciente mantém reprimido o que esqueceu e expressa- o pela atuação (acting out) sem saber o que está repetindo: “Por exemplo, o paciente não diz que recorda que costumava ser desafiador e crítico em relação à autoridade dos pais; em vez disso, comporta-se dessa maneira para o médico”. (pág.200)

O paciente repete durante todo o tratamento, o que Freud denomina de compulsão à repetição, sendo esta a maneira do paciente recordar. Como parte deste processo ocorre a transferência para a figura do analista e também, para todas as situações cujos aspectos se assemelham à situação atual, nas suas atitudes, nos relacionamentos ou nas atividades desempenhadas. Nesta mesma ocasião ocorre a resistência que, conforme a amplitude ditará a intensidade da atuação com o propósito de evitar expor, na personalidade manifesta, suas inibições, sintomas, atitudes inúteis e traços patológicos de caráter.

O fenômeno da repetição demonstra ao analista que a doença deve ser tratada resgatando fragmentos do passado do paciente e atualizando-os no presente. Para Freud, o que irá ditar o sucesso do tratamento será a habilidade do analista para modificar o significado da transferência, transformando-a numa neurose de transferência ao reprimir a compulsão do paciente à repetição e permitir total liberdade de ação para que as pulsões que se acham ocultas na mente do paciente possam aflorar.

Freud enfatiza que revelar ao paciente suas resistências é o passo inicial no processo psicanalítico. Ao ser informado sobre suas resistências, o paciente necessita de um período para entendê-las, consequentemente, elaborá-las e superá-las dando continuidade ao trabalho psicanalítico.

O tempo de elaboração das resistências, segundo Freud, vai exigir coragem por parte do paciente e paciência do analista. Apesar deste tempo no processo de elaboração, a técnica psicanalítica revela-se diferenciada por operar resultados eficazes no paciente.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

UM BREVE COMENTÁRIO SOBRE SIGMUND FREUD


Nos textos de Freud, a cada leitura, se descobre mais e mais detalhes permeados em suas amplas ideias. Trata-se de um tecer intelectual tão acurado que qualquer descuido perde-se o sentido verdadeiro, sobretudo em relação à semântica. 

Ao idealizar o aparelho psíquico como aparelho de linguagem e, posteriormente, como aparelho de memória, Freud consegue vislumbrar toda a dinâmica dos fenômenos da mente humana na sua relação com o mundo e suas representações perceptivas e sensoriais.

Sabe-se do inconsciente e de seus fenômenos, e que para domá-lo é preciso dar à ele liberdade nas associações livres. É paradoxal! Ao revelar toda a energia pulsional ali contida, a mente humana torna-se vilã de si mesma. Primeiramente, tenta reprimir para evitar lidar com o que desconhece. Mas, como “o passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente” (Mario Quintana), ainda que o inconsciente tente resistir, esquecer ou reprimir, irá repetir e repetir e repetir. A eficácia da técnica psicanalítica é incontestável. Aos poucos, o inconsciente se dará por vencido. Suas resistências serão rompidas e acabará revelando seus segredos. Para se adequar ao mundo real precisa se conscientizar deles e desenvolver a capacidade de elaboração, de superação.

À Freud parece que nada escapou, e a técnica parece estar completa! Mas, é somente o início de uma longa jornada.

A lógica indica que para assimilar corretamente toda a teoria psicanalítica é preciso persistir, buscar em outras fontes outros saberes, outras teorias, todavia, com senso crítico. Freud criou uma ciência que não é estanque, ao contrário, sua flexibilidade possibilita ser reinventada a cada situação e a cada paciente.

FREUD, S. “Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud”