quarta-feira, 2 de novembro de 2016



Comentários sobre o livro de Jean-Pierre Lebrun:


CLÍNICA DA INSTITUIÇÃO


O que a Psicanálise contribui para a vida coletiva




Jean-Pierre Lebrun inicia seu livro fazendo um questionamento sobre a extensão da psicanálise e sua eficácia aplicada na vida institucional. Em como a psicanálise pode contribuir para a vida coletiva, seja para pequenos grupos ou para toda uma sociedade. Ele observa que o mundo passa por um momento histórico de grandes mudanças, em que o laço social encontra-se variável e problemático. A subjetividade individual e a vida coletiva perdem a sua constituição patrocentrada, onde opera a recusa do real. Diante deste cenário, governar se tornou somente o que é possível. Aquele que ocupa um lugar de exceção, não consegue conduzir à unidade por não mais ter lugar privilegiado, devido a clivagem entre os discursos das vidas institucional e política versus a tão difícil realidade cotidiana. 






Lebrun versa apoiando-se nas teorias de Freud e Lacan, na tentativa de reinventar a vida coletiva, não mais no modelo de autoridade tradicional, mas, através do coletivo onde cada sujeito assume a responsabilidade dos seus atos. Com este trabalho, Lebrun demonstra como o psicanalista pode dar conta do percurso da vida dos grupos e da clínica, para enfrentar os novos perfis institucionais. 


Pelos capítulos do livro, Lebrun vai construindo um mosaico à partir de fragmentos das teorias de Freud e Lacan, para demonstrar como está organizada a vida coletiva, num momento histórico em que o laço social, sobretudo na dimensão do político, passa por uma profunda transformação. A sociedade perde a verticalidade incompleta e consistente, para uma estrutura horizontalizada, completa e inconsistente, que rompeu com a totalização do Um, com o transcendental, cuja autoridade era incontestável. Constata-se hoje uma inversão, onde opera uma recusa a qualquer sobrepujança. O sujeito não aceita mais ser governado porque busca sua própria via para garantir sua singularidade, e quem ocupa o lugar de exceção, tem dificuldade para promover a unidade. Segundo o esquema da sexuação de Lacan, Lebrun demonstra que o funcionamento do lado dos homens coexiste ao do lado das mulheres, este fato é irredutível. Evitar a organização patriarcal, não significa dar prevalência à mãe, pois, representaria a perda do discernimento em relação à cultura, como um resto não domesticado tendo como base a hostilidade. Nenhum sujeito pode fazer sua própria via sem instituir, afinal, a língua enoda o sujeito singular e o coletivo, o que possibilita o ato. Embora, o lado direito denote uma autoridade sem autor, um conjunto aberto, uma pluralidade, Lebrun comprovou que uma instituição sob o totalitarismo do Outro pode ser eficaz, por oferecer ao sujeito a possibilidade de um ato ético, pois, no seu estatuto de falasser deverá se orientar pelos seus valores, assumir a responsabilidade pelos seus atos e ter respeito às singularidades dos outros.


Diante da atual realidade, do mundo das satisfações imediatas, Lebrun percebe a necessidade de reinventar a vida coletiva, apostando na conscientização e educação cidadã, cujas normas e leis devem ser absorvidas por todos, de maneira que o real possa dar sentido ao simbólico. A aptidão à linguagem que obriga o sujeito à uma perda, possibilita as diferenças de lugares e fazer ato ao reconhecer as leis e normas. 


Ao psicanalista que trabalha na instituição, é preciso estar atento à sua posição para “ouvir os fenômenos institucionais com ouvido analítico” (pág.79) e conseguir analisar as ações inconscientes e identificar o corte entre os lugares. Todos os fatos institucionais, assim como, silêncios, lapsos e pontuações devem ser considerados como discursos. Lebrun destaca como a única arma de trabalho do psicanalista, a transferência que possibilitará abordar o que constitui o enodamento entre os sujeitos.



Referência Bibliográfica


LEBRUN, JEAN-PIERRE "Clínica da instituição:o que a psicanálise contribui para a vida coletiva" Porto Alegre ; CMC Editora