domingo, 23 de dezembro de 2012

A privação da facilitação ambiental e suas consequências na formação do self

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Donald Wood Winnicott (1896-1971)

As ideias de Winnicott trouxeram uma nova proposta terapêutica à psicanálise freudiana, sobretudo no que diz respeito à origem dos distúrbios psíquicos. Winnicott os compreende como decorrentes da falha ambiental tendo suas raízes anteriores ao complexo de Édipo. Desta forma, a teoria da sexualidade representa para Winnicott, apenas uma parte do desenvolvimento do ser humano.

Suas observações derivaram de seu trabalho com crianças e bebês, quando pôde notar que o desenvolvimento do ser humano é um processo contínuo envolvendo o corpo, a personalidade e a capacidade de relações. Winnicott afirma que “... nenhuma fase pode ser suprimida ou impedida sem efeitos perniciosos.”(pág.95) A seu ver, saúde significa maturidade. O ser humano terá saúde se não houver empecilhos em seu desenvolvimento emocional.

Ainda no ventre, o bebê desenvolve as primeiras percepções de mundo. Ao nascer, ele traz consigo esses referenciais e responderá ao ambiente de forma própria e distinta. O bebê nasce não integrado, ou seja, não há vínculo entre o corpo (soma) e a mente (psique), não há noção temporal nem espacial. O ambiente age como facilitador no processo de maturação que, a princípio, é representado pela mãe que, por sua vez, precisa se identificar com o bebê para conhecê-lo. Isto se dá através da “preocupação materna primária”, quando a mãe desenvolve a capacidade de se adaptar por completo às necessidades do bebê.

Nos primeiros seis meses de vida, o bebê encontra-se na fase de “dependência absoluta”. Isto significa que todos os cuidados dedicados a ele constituem segurança, saúde e prazer. A mãe apresenta o mundo ao bebê e permite que ele tenha a ilusão de criar as coisas conforme suas necessidades. Aos poucos, a mãe vai conseguindo recuar desta posição para outra, chamada por Winnicott de “dependência relativa”, cuja tarefa será conduzir, gradativamente, o bebê no processo de “desilusionamento”, à medida que ele demonstre aceitação da realidade externa.

Esta relação íntima saudável entre mãe e filho, funda a base da personalidade do bebê, de seu desenvolvimento emocional e fortalecimento psíquico. O vínculo será suficientemente bom se houver amor.

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    A Maternidade - Pablo Picasso (1905)

Para Winnicott, o bebê terá um bom princípio de vida se a mãe o reconhecer como uma pessoa e oferecer a ele o “holding” e o “handling” adequados. São termos usados por Winnicott para explicar que na formação do self, a maneira como a mãe segura o bebê em seu colo, o fato dele se sentir desejado e do contato físico com ela, seu ego (na visão de Winnicott tem a ver com instância psíquica) seja estabelecido. Para esta comunicabilidade entre mãe e bebê, Winnicott denominou de “experiência de mutualidade”, que também diz respeito às primeiras manifestações de amor entre ambos, sobretudo na alimentação (amor-boca), quando também se estabelece a comunicação a partir do olhar: a mãe observa o bebê e este se vê em seus olhos (imagem especular). O rosto da mãe é como um espelho capaz de libidinizar, quer dizer, dar sentido ao seu instinto, ao objeto. Trata-se do início de uma intersubjetividade entre ambos, o encontro de dois inconscientes (mãe-bebê). Somente com um bom holding, o bebê será capaz de diferenciar o seu “eu” e o que existe fora dele, “não eu” e alcançar o estágio de integração, processo este anterior à personalização.

“O prazer da mãe tem de estar presente nesses atos ou então tudo o que fizer é monótono, inútil e mecânico”. (p.28)

Segundo Winnicott, a mãe cuida para garantir ao bebê previsibilidade, tranquilidade e confiabilidade que auxiliarão na sua integração e personalização, ou seja, para a constituição do self – da experiência do bebê poder se perceber como um alguém ao longo do tempo. Este processo é mesclado com vivências de “não-integração”, ao introjetar o ego auxiliar da mãe, o bebê desenvolve a capacidade de estar só, considerado por Winnicott como um dos mais importantes sinais de saúde psíquica e de desenvolvimento emocional.

Quando não há apresentação de objeto, holding e handling adequados, o ego do bebê fica perturbado, não consegue se estabelecer ou se desenvolver conforme o processo de maturação. O bebê tem a sensação de despedaçamento, de enlouquecimento, de queda, de má percepção da realidade externa, dentre outras ansiedades classificadas como psicóticas (pag. 27). Winnicott descreve estas sensações como “agonias impensáveis” e aponta as falhas ambientais e as perturbações, como desencadeadoras de distúrbios psicossomáticos, sejam nas fases iniciais ou mais adiantadas do desenvolvimento, cujas defesas podem apresentar organizações do tipo esquizoides ou um falso self. Winnicott (1952) descreve o falso-self como sendo uma versão patológica do que seria uma personalidade normal, cuja origem está relacionada com uma adaptação não suficientemente boa no relacionamento do bebê com os objetos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

· WINNICOTT, D. W. “O brincar e a realidade” (J. O. Abreu e V. Nobre, trad) Ed. Imago, Rio de Janeiro, 1975.

· WINNICOTT, D. W. “A criança e o seu mundo” (1948), Zahar Editores S.A.- 6ª edição – Rio de Janeiro: 1982.

· WINNICOTT, D. W. “O ambiente e os processos de maturação” Porto Alegre: Artes Médicas. 1990.