Bateu saudade dos meus avós! Tive o privilégio de conhecê-los e passar muitos anos ao lado deles. Meus avós moravam em uma casa cercada de flores e árvores frutíferas: além das roseiras, magnólias e sempre-vivas, haviam mexericas, goiabas, jabuticabas, cidras, limões-rosa (muito bons para combater gripes) e uns pezinhos de café, de onde meus avós colhiam os grãos, secavam e pilavam. Exatamente isso, pilavam! Naquela época, ter um pilão era como ter um multiprocessador nos dias de hoje. Todo mundo tinha um pilão! Grande, médio ou pequeno, não era propriamente um sonho de consumo e sim uma necessidade. O pilão dos meus avós era um modelo standard e ficava ao lado da porta da cozinha. Além desse, minha avó também usava outro pilão bem pequeno, tipo almofariz de metal, para pilar alho. Colher, torrar, socar os grãos no pilão somados às canções italianas e àquele cheirinho bom, ficaram registrados em minha memória. Meus avós pilavam os grãos de café! A tarefa era dividida entre os dois. Quando um cansava, passava a vez ao outro. Interessante é que eles não faziam aquilo com desprazer, ao contrário, lembro-me dos risos, da cumplicidade, uma verdadeira parceria no ato de pilar. Aquele bater cadenciado e firme: tum, tum, tum, fazia o meu coração bater no mesmo ritmo.

Mulher do Pilão - Cândido Portinari
Só entende de pilão quem tem ligação com a natureza, com a terra. Meus avós trabalhavam a terra e respeitavam a natureza. Eles olhavam para o céu e sabiam se ia chover, conheciam o canto dos pássaros e se o ano daria uma boa colheita. Candido Portinari pintou a “Mulher do Pilão”, cujos pés e mãos são grandes como todos os outros personagens de suas telas, provavelmente para demonstrar o seu reconhecimento e respeito para com aqueles que trabalham a terra.
Quem trabalha a terra, respeita a natureza, portanto, são pessoas sensíveis. Meus avós eram sensíveis e estavam sempre de bom humor, talvez porque, o ato de pilar os grãos de café possibilitava a elaboração das fantasias e de impulsos agressivos: eles socavam, trituravam, esmagavam, estilhaçavam os grãos. Dramaticamente terapêutico! A recompensa era a satisfação do aroma e o prazer de saborear um delicioso café. Que saudades dos meus avós!
Canções do Folclore Italiano: Matinatta / Va’ pensiero